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[RESENHA] A Guerra do Paraguai | Ou, as mutações da história...

Apesar de importante, o maior conflito armado da America do Sul é pouco conhecido o que permite muitas interpretações para o mesmo fato...


Nota: ★★

O que mais me impressionou logo nas primeiras páginas deste livro foi notar que pouca coisa sabia a respeita desta guerra, que durou de 1864 a 1870. A começar pelo nome: se aqui no Brasil batizamos de Guerra do Paraguai, por lá eles chamam de Guerra da Tríplice Aliança. E a desinformação não fica restrito ao nome do conflito. Com intenções políticas, figuras históricas foram alçadas ao patamar de heróis enquanto outros foram rebaixados ao status de demônios.  E ainda temos a questão que sempre emerge quando ocorre um conflito: de quem foi a culpa? Luiz Octavio de Lima, através de extensa pesquisa, mostra que as coisas não são assim tão claras e precisa-se de um pouco de parcimônia para entender com clareza este conflito que devastou o Paraguai e fortaleceu as forças armadas brasileiras que, dentre outros fatores, culminariam com a Proclamação da República anos depois.

Muito provavelmente você já deve ter escutado que o Paraguai em meados do século XIX era uma potência tecnológica e financeira, totalmente autossuficiente e que rivalizava, comercialmente, com a toda poderosa Inglaterra. Os ingleses, feridos em seu orgulho, não poderiam admitir isto e instigaram Brasil, Argentina e Uruguai a começarem uma guerra contra o Paraguai para findar com esta crescente potência. Ao que tudo indica, isso está muito longe da verdade. Pelo menos é o que assegura o autor.

Segundo ele, todos os países envolvidos no conflito eram majoritariamente agrícolas. Nenhum deles tinha um comercio de produtos manufaturados dignos de nota lhes restando apenas o comercio de produtos primários. Inclusive o Paraguai. Então, o que motivou a guerra, já que Isabel II, Rainha da Inglaterra na época, não teve culpa no cartório? Para Luiz Octavio de Lima, os motivos são, basicamente, um reflexo da consolidação dos estados nacionais independentes e questões geopolíticas da região – fruto direto do conflito que trouxe a independência do Uruguai...

Explicando: na ânsia de viabilizar outra saída marítima para escoar sua produção, para não ter de depender dos humores de Buenos Aires, Francisco Solano Lopes, general e presidente paraguaio também chamado de El Mariscal, firma uma aliança com o Uruguai num pacto de defesa mútua. Quando o Brasil, por conta de querelas entre uruguaios e fazendeiros gaúchos, decide intervir no Uruguai, Solano Lopes cumpre o acordo de defesa mútua e, não seguindo os conselhos de seu pai que antes de morrer pediu para que o filho jurasse não entrar em guerra com o império, ataca o Brasil. Aí, temos o início de nossa guerra. Logo em seguida o presidente uruguaio é deposto subindo ao trono um mais favorável a causa brasileira e se junta a Don Pedro II, imperador brasileiro, no conflito contra o Paraguai. Com a adição de Bartolomeu Mitre, a Argentina entra no conflito e o cenário daquilo que seria a mais sangrenta e duradoura guerra da América do Sul está montado.

No livro, ficamos sabendo que o Paraguai possuía um grande exército e ainda contava com a bravura de seus soldados. Isso, porém, não foi suficiente para derrotar a tríplice aliança. E ao final da Guerra, temos um Paraguai devastado – nisso, é difícil precisar quantos paraguaios morreram, alguns estimam em 90% da população masculina e outros em 25% - e com percas territoriais significativas. Claro que olhando esses números fica fácil julgar culpados os comandantes da Tríplice Aliança por essa carnificina, porém, não podemos esquecer o estrago causado pelo próprio Mariscal ao seu povo.

Solano Lopes, já sabendo que não teria mais condições de vencer o conflito, poderia hastear a bandeira branca e poupar seu povo de muito sofrimento. Apesar de hoje ser adorado, Solano Lopes era um tirano: perseguiu muitos adversários políticos, mandou açoitar a própria mãe e matar um irmão. Enquanto o povo passava fome, ele desfrutava de uma vida opulenta, tanto que Elisa Lynch, sua esposa, era tida como uma das pessoas mais ricas da região.

É óbvio que vilões não se encontram apenas no lado Paraguaio. Como toda guerra, as máscaras da maldade ficam sempre dos dois lados e nós também temos nossos demônios e o principal deles, provavelmente, é o genro de Don Pedro, Cond’Eu. Aqui, não vou me delongar muito porque estou escrevendo algo sobre isto mas não posso deixar de mencionar dois fatos calamitosos perpetrados pelo conde: um incêndio num hospital de feridos que matou vários paraguaios sem condições de combater e, talvez o mais triste, O Massacre de Acosta Ñu.

A batalha de Acosta Ñu, que ocorreu no dia 16 de agosto e que marca o dia das crianças no Paraguai, foi uma passagem realmente triste da nossa história. Basicamente, Solano Lopes, com seu exército já devastado, recrutou crianças (CRIANÇAS) para lutar contra o exército brasileiro e este, comandado pelo Cond’Eu não se fez de rogado em mata-las. Ou melhor, MASSACRÁ-LAS. Muitas delas – a maioria – nem armas tinham, mas isso não arrefeceu os ânimos do conde e o que se viu foi uma carnificina/covardia sem tamanho. Pouco depois deste conflito Solano Lopes fora morto e a guerra acabou - aí você pensa: o que leva um comandante a colocar crianças pra lutarem e adversários lutarem com elas? Como já disse uma vez:

"será que encontraremos absolvição para o mundo, para nossa a nossa felicidade e até para a harmonia eterna se, em nome disso, para solidificar essa base, for derrubada uma lagrimazinha de uma criança inocente? Essa lagrimazinha não legitima nenhum progresso, nenhuma revolução. Nenhuma guerra. Ela sempre pesa mais. Uma só lagrimazinha..."  

Logo após a guerra, a figura de Solano fora demonizada no Paraguai como alguém que levou o país ao colapso.  O que não é totalmente verdade. Em meados do séc. passado, muitos revisionistas, com propósitos políticos claros, metamorfosearam a figura del Mariscal como alguém quase santo que lutou contra a tirania de países que tinham como interesse servir aos desejos da Inglaterra. O que, excetuando, segundo o autor a parte da Inglaterra, não é totalmente mentira. É dessa época que vem a ideia de um Paraguai quase paradisíaco.

Longe de ser um livro definitivo sobre o tema, A Guerra do Paraguai, de Luiz Octavio de Lima, consegue lançar luz sobre algo pouco conhecido da história do Brasil e tenta espantar ideias propagandísticas sem nenhum viés histórico e documental.

Claro, não me assustaria que daqui algum tempo, algum outro politico use isso,  guerra, com algum viés pessoal. Por isso que livros assim são importantes.

Obs.: a despeito de qualquer coisa e do quanto eu tenha gostado do livro, uma só narrativa, por mais bem feita que seja e com a melhor das intenções, não pode ser a base para nosso pensamento a respeito das coisas. Sendo assim, outros livros e artigos são necessários para formar uma ideia, ao menos aproximada de fatos que ocorreram e ocorrem a nossa volta...


Boa leitura.


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A Guerra do Paraguai (2016)
Páginas: 448
Autor:  Luiz Octavio de Lima
Editora: Planeta
Comprar: AMAZON

[RESENHA] O Silêncio das Montanhas, de Khaled Hosseini

Antes de ser um livro sobre a separação ainda na infância de dois irmão, O Silêncio das Montanhas é um retrato emocionalmente triste e inevitável das angústias que todas as relações humanas acarretam...


Nota: ★★

Algumas histórias tem o dom de nos fazer ter esperanças mesmo que o mundo esteja desabando ao nosso redor. Outras tem o dom de nos divertir e ver que a vida pode ser levada de forma leve. Mas algumas parecem que foram feitas com o intuito de abrir nossos olhos para uma realidade onde nem sempre tudo é possível e mesmo a felicidade, quando chega, não é tão colorida e vem mesclada com um tempero agridoce. É o caso do ótimo “O Silêncio das Montanhas” de Khaled Hosseini. Chegar ao ponto final do livro e não sentir um aperto no peito, quase como uma facada, é como caminhar no deserto e não ter sede. Só é possível se você tem alguma parte do cérebro desligada que te impossibilite de se emocionar, de sentir empatia. De ver que o mundo, ainda que cheio de possibilidades maravilhosas, pode ser um lugar cruel e que a nossa vida nem sempre é guiada por aquilo queremos.

Quando lançou o ótimo "O Caçador de Pipas" no ano de 2003, Hosseini conseguiu emocionar milhares de leitores com sua escrita que penetra o fundo da alma humana. Não há como negar que ele é um ótimo contador de histórias. Em O Silêncio das Montanhas, o autor aplica uma narrativa um pouco distinta do que estamos habituados em suas obras, mas não esconde seu verdadeiro trunfo como escritor: nos emocionar.

No livro, acompanhamos a vida de Pari e Abdullah, duas crianças que tem um laço mais forte que o fraternal que as une. É como se pertencessem a faces diferentes da mesma moeda. Impossível dissociar um do outro. Porém, a vida nem sempre funciona como a gente quer e por motivos extremos, Pari e Abdullah são separados. Aí, temos a saga de duas almas que seguirão suas vidas com oceanos de distância mas o reflexo delas, uma na outra, sempre será uma presença constante.

A narrativa fragmentada que  serve para mostrar diversos pontos de vista de uma história maior, pode afastar alguns leitores, haja vista a dificuldade de num primeiro momento, relacionar-se sentimentalmente com o enredo. Porém, se você se enquadrar nesse grupo, faça um esforço e dê uma chance a este livro. Mesmo parecendo uma coleção de contos que se entrelaçam, a narrativa é coesa e abre espaço para um alcance maior e serve o objetivo do autor que é nos mostrar as intrincadas relações da vida,  

Apesar de ter como foco principal a vida de Pari e Abdullah, o livro é uma viagem por gerações e personagens onde atitudes tomadas por um, reflete-se de forma incomensurável na vida do outro. É uma gama gigante de personagens, vilas e países que de forma direta ou indireta aglutinam-se para rebater na vida de Pari e Abdullah. Claro, em se tratando de Kaled Housseini, a guerra não poderia ficar de fora.

É impossível fazer um panorama do Afeganistão retratando o modo de vida e de pensar de seu povo sem mencionar este mal que independente dos avanços tecnológicos e humanistas que nossa espécie tenha alcançado, consegue parecer etéreo ao homo sapiens. Mas de forma sábia o autor não foca no conflito em si. Ele prefere focar-se na vida de gente comum que não pediu pra que a guerra acontecesse mas que vê sua vida jogada num carrossel de acontecimentos quase inverossímeis.

Uma parte muito reflexiva da narrativa é o modo que o autor descreve como os afegãos que permaneceram no país no decorrer do conflito enxergam aqueles que se evadiram. É como se não fossem dignos de chamar aquela terra de sua, e independentemente de estarem corretos ou não, quem pode censurá-los? Ainda há uma crítica leve, porém marcante, àqueles nativos que decidiram lucrar em cima das pessoas e organizações que se dispuseram a ajudar na amenização do sofrimento do povo. São momentos que valem a reflexão sobre nós como seres sociais, éticos e religiosos. E vale ressaltar que o autor faz isso não forma didática mostrando onde e como devemos pensar. Isso é feito de forma orgânica e de mansinho. Quando você se dá conta já está pensando sobre você como um ser social e em suas atitudes e se questionando se realmente tem sido alguém digno de nota.

Apesar de toda tristeza que permeia a obra e um final que parece caminhar para um fim melancólico e injusto, Kaled Housseini faz questão de deixar uma chama acesa de esperança na tentativa de mostrar que por mais infeliz, trágica e injusta que seja a vida, ainda é possível vislumbrar coisas boas para um futuro que mesmo assustador, pode ser incrível, belo e cheio de surpresas boas.  


Boa leitura

O Silêncio das Montanhas (And the Mountains Echoed , 2013)
Páginas: 350
Autor: H. Khaled Hosseini
Editora: Globo Livros
Comprar: AMAZON

[RESENHA] As Terras Devastadas (A Torre Negra #3), de Stephen King

foto por: castelodecartas.com.br

Nota: ★★★★



"Eu não miro com a mão; 
aquele que mira com a mão esqueceu o rosto de seu pai.
Eu miro com o olho.
Eu não atiro com a mão; 
aquele que atira com a mão esqueceu o rosto de seu pai.
Eu atiro com a mente.
Eu não mato com a arma; 
aquele que mata com a arma esqueceu o rosto de seu pai.
Eu mato com o coração."


Tenho que começar esta resenha informando-vos que este é o melhor livro da saga, até aqui. O clima de aventura e de suspense ficam lá em cima. Apesar da melhora do segundo em relação ao primeiro, é neste aqui que se faz jus à todo ode em volta da saga do pistoleiro e seu ka-tet. Mais importante ainda, aqui começamos a ter um vislumbre melhor de como é o mundo de Roland, algumas de suas tradições e os tão bem elaborados ensinamentos que todo pistoleiro deve saber de forma instintiva - como a citação que inicia esta postagem.

As Terras Devastadas ) é dividido em duas partes: “Jake – Medo Num Punhado de Pó” e “Lud – Um Monte de Imagens Quebradas”. Sim, neste livro, Jake (vá então, há outros mundos além deste), nosso querido pequeno personagem morto no início do livro retorna. É aquele conceito de multiverso na prática. Aquela “cena” no livro anterior que Roland salva Jake de ser morto por Jack Mort teve implicações diretas na vida deles, Jake e Roland. E pra sanar a loucura a vida de ambos é preciso que Jake cruze para o mundo do pistoleiro e não é demagogia afirmar que a cena de Jake saindo no nosso mundo para aportar no mundo médio é simplesmente genial. Toda a criatividade de Roland foi a mil na descrição da cena. De quebra, ainda temos um aprofundamento na mitologia da Torre.

Há um terreno baldio onde uma Rosa cresce e para nossa surpresa esta frágil planta é um reflexo no nosso mundo da Torre Negra. Não sabemos ao certo mas fica latente a ideia que protege-la é tão importante quanto proteger a Torre para evitar o colapso do universo. Há uma certa poesia em tudo isso que enche os olhos do leitor.

Nesta primeira parte também vemos Rolando ensinando Eddie e Susannah a serem pistoleiros e como Eddie, por vezes se cansa disto irritando Roland. A dinâmica deles é bem legal. Vale ressaltar que tanto Eddie quando Susannah já não se vem mais prisioneiros de Roland e sim parceiros do pistoleiro em sua obsessão com a Torre. É neste caminho eles se deparam com um dos Guardiões do Feixe de Luz: um Urso Gigante tecnorgânico que enlouqueceu com a "doença" que invadiu o Mundo Médio. Eles precisam passar por ele para seguir o caminho do Feixe de Luz que leva até a Torre. Mas antes acabam chegando a cidade de Lud.

Na segunda parte do livro, além dos quatro integrantes, há o acréscimo de mais um, um trapalhão, uma espécie de guaxinim com cachorro que consegue articular algumas palavras, que logo se afeiçoa a Jake. Juntos chegam até a cidade de Lud, um dos poucos locais habitados. Lá, eles encontram pessoas muitos velhas e temos conhecimento do respeito que Roland sendo um pistoleiro evoca nos moradores. Há uma espécie de reverência mística colocando o pistoleiro como alguém quase divino. Também conhecemos algumas tradições do mundo médio. E somos apresentados ao monotrilho Blane: um monotrem dotado de inteligência artificial que está louco. Promete levar Roland e seu Ka-tet mais próximo da Torre, mas antes eles precisam participar de jogos de adivinhação onde o que vale é a vida deles. Assim termina este terceiro volume.

Numa narrativa mais fluída que seus antecessores, As Terras Devastadas consegue prender mais e ser mais explicativo. Enquanto nos outros livros não muita preocupação com a mitologia envolta da saga, neste temos um cuidado maior do autor em apresentar esses conceitos numa narrativa de tirar o fôlego. 


Boa leitura

As Terras Devastadas (The Waste Lands – 1991)
Páginas: 654
Autor: Stephen King
Editora: Ponto de Leitura
Comprar: 


Obs.: escrevo esta resenha logo após ter visto o trailer do filme sobre a Torre Negra que estreia em agosto. Ansiedade à toda a espera do filme. Confira o trailer abaixo. 




CujoAs Terras Devastadas (A Torre Negra #3) (The Waste  Landes – 1991)
Páginas: 654
Autor: Stephen King
Editora: Ponto de Leitura

[RESENHA] Cujo, de Stephen King

Longe de ser o melhor trabalho de King, “Cujo” consegue mostrar que nossas escolhas, pequenas ou grandes, geram consequências inimagináveis, além de ser uma ótima oportunidade de ver o universo compartilhado do autor.


foto: The Tony Lucas Blog

Nota: ★★★★


Não sendo nenhuma novidade para quem acompanha este espaço, sou fã inveterado de Stephen King. Seus livros, além do terror como algo intrínseco, a maioria deles possui uma visão intensa da mente humana. É como se uma janela se abrisse e tivéssemos acesso aos pensamentos de alguém. Talvez, este seja o principal motivo do sucesso do autor: a capacidade de nos vermos, ao menos um pouco em cada personagem. Sua escrita detalhista faz a narrativa seguir de um ponto de calmaria para um ponto onde o terror, que vinha sendo sussurrado, nos cerque numa atmosfera sufocante e avassaladora. E isso é o que mais chama atenção nesta obra.

Cujo (Cujo – 1981), foi o sétimo livro publicado por Stephen King. Passado na fictícia cidade de Castle Rock, palco de tantas outras obras de King, o livro tem como tema central o cão da raça São Bernardo, Cujo, que após contrair raiva acaba causando um tormento que marcará a cidade. Mas, claro, sendo King o autor, o livro não fixa somente nisso.

De início, acompanhamos Vic e Donna Trenton.  Ele, um publicitário que juntamente com seu sócio, Roger Breakstone, enfrentam um problema referente a um de seus clientes que pode decretar o fim da agência; ela, mediante a infelicidade por ter se mudado de Nova York, engata um romance extraconjugal e acha que está no momento de selar esta parte obscura de sua vida. Junto a tudo isso, temos o filho do casal, Tad que passa a ter pesadelos com um monstro do armário.

Acompanhar a vida do casal é uma tarefa fascinante. Desde Vic com seus problemas no serviço e suspeitando da fidelidade da esposa a Donna que vê na “escapada” uma forma de não enlouquecer, mas que sabe que não pode continuar assim, porém, teme romper com Steve, o "pé de lã". Acompanhar os personagens com esse mundo interior perturbado é incrível. A escrita do autor consegue transmitir todo este drama que te incomoda ao mesmo tempo que faz você torcer por um desfecho positivo na vida do casal. Até este ponto, os “os monstros” da narrativa são as pessoas e seus problemas. E quando Vic precisa viajar pra resolver o problema da firma, ele já tem conhecimento da infidelidade da esposa. E isso será um fator importante no destino dela e, principalmente do filho.

Em muitas obras de King, um acontecimento repercute de forma inesperada resultando num desfecho por vezes triste na vida dos personagens. Aqui, enquanto Vic reflete sobre a conduta da esposa e o que será do casamento, um milhão de coisas passam por sua cabeça que fazem ele exitar na ligação e isso, gera um montante de terror na vida de Donna e Tad. Este terror tem nome: Cujo. O cão São Bernardo que sempre fora dão dócil, teve a infelicidade de contrair raiva e só pensa em matar. 

O drama vivido por Donna e Tad no fim da narrativa são de dar nó no estomago. É pra você fechar o livro e sentir um vazio completo apenas pelo desespero do que acabara de ler. King não poupa o leitor escolhendo o caminho fácil do final feliz. Nada disso. Aqui, o final é de tirar o sono e te fazer odiar e amar o autor na mesma medida pois gostaria de um outro final mas sabe que se assim fosse, o livro não teria o mesmo impacto que teve. King sabe o que faz.

Como de praxe nas obras de King, muitos personagens já são conhecidos de outras obras. Isso traz aquela sensação de familiaridade com a história e ainda enche os olhos dos fãs. Além disso, outro personagem presente na obra foi o alcoolismo. King relata na ótima quase biografia, Sob à Escrita, que enquanto escrevia Cujo, estava na sua mais profunda entrega ao vício e que pouca coisa recorda-se da concepção da obra.

Marcado por um final angustiante, Cujo é um livro que faz o leitor entrar na mente dos personagens e vê que assim como atitudes grandes tem suas implicações, as pequenas também tem e o acumulo delas pode gerar um futuro que ninguém imagina. A não ser que você seja Stephen King.

Boa Leitura

Cujo (Cujo – 1981)
Páginas: 376
Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Comprar: Amazon
  

[RESENHA] Quatro Vidas de Um Cachorro, de W Bruce Cameron


Muito se discute sobre o papel dos animais no plano espiritual. Animais tem alma? Se tem para onde vão após este plano? Há um paraíso para eles? Recentemente o Papa Francisco anunciou que os cães vão sim para o paraíso. Na divertidíssima história “As Quatro Vidas de Um Cachorro”, o autor W Bruce Cameron dá sua versão do que poderia acontecer com um cachorro após a morte. Pautado num paradigma espirita de reencarnações, propósitos e sentido da vida, Cameron consegue emocionar sem cair no simples sensacionalismo.

De uns tempos pra cá a ideia de bem estar animal vem garimpando um estado cada vez maior na esfera social e política. Hoje em dia, para muitas pessoas, alguns animais de estimação já possuem o status de membro da família. Não é à toa que as redes sociais são palco para muitas das peripécias provocadas por tais indivíduos e logo ganham um número incrível de visualizações. Então, quando um livro se dedica a falar sobre esses animaizinhos, temos de dar nossa atenção.

O livro Quatro Vidas de Um Cachorro, traz em seu título um grande resumo da obra: acompanhamos a trajetória de um cão que vai passando de uma existência a outra e, em cada uma, vai agregando valores, informações e sentimentos. Toda a história é narrada com muito bom humor, carisma e repletos de momentos emocionantes. É difícil passar incólume ante a vida do pequeno Perna Curta e sua saga de ser um cachorro de rua tentando sobreviver; ou a cadela Ellie como policial treinada para salvar vidas; ou a na vida de Urso e sua triste realidade de ser "propriedade" de donos que não estão nem aí pra ele. Mas é em sua passagem por aqui como Bailey que carrega a parte mais emocionante da vida (ou das vidas) do nosso amiguinho. . 

Qualquer pessoa que tem o prazer de ter um cachorro, sabe o quanto um companheiro deste é importante. É como se ele fosse aquele grande amigo que encontramos  cumplicidade e companheiros. Enquanto navegava por essas páginas, era impossível não emocionar-me ou pensar nos meus amigos peludos. Tempos atrás escrevi um texto sobre um dos meus cachorros, Einstein que um belo dia sumiu, que me lembrou muito Bailey e seu menino.  

LEIA MAIS: minha busca pelo cachorro perdido

Mas, claro, para viver todas essas vidas o cãozinho tem que morrer. E, apesar de serem momentos de forte sentimento – confesso que ciscos caíram em meus olhos nessas passagens – o autor se polícia para não abusar de um sentimentalismo excessivo pois, uma situação dessas já é, por si só carregada de sentimentos. 

A grande sacada do autor, ainda, não é só transpor nossa paixão por cachorros para as páginas, mas sim, mostrar como é (ou seria) a vida do ponto de vista do cachorro. Coisas que para nós são simples, para eles não são tão lógicas assim e dependendo da nossa situação, pode ser até confusa para eles. No posfácio do livro vemos que autor além de usar a imaginação, fez uma pesquisa extensa sobre comportamento animal o que foi de vital importância para a ótima qualidade da obra. 

É difícil saber o quanto é ou não real a ideia de cães no paraíso ou os cachorros tendo de encontrar um propósito em sua breve - ou não tão breve - existência. Nós, seres humanos, com toda nossa filosofia e ciência ainda buscamos um sentido para nós. Mas, o que é certo, é que independente de ter ou não propósito mais digno, nós ficamos gratos em saber que um de seus propósitos é ser o nosso fiel e grande companheiro.  

Boa leitura.

Livro: Quatro Vidas de Um Cachorro
Páginas: 288
Autor: W Bruce Cameron
Editora: SHarperCollins Brasil
Comprar: Amazon
Nota: 

[RESENHA] A Escolha dos Três (A Torre Negra #2), de Stephen King


"Três. Este é o número do seu destino.
Três?
Sim, o três é místico. O Três está no coração do mantra.
Que três?"
(A Escolha dos Três)

A Escolha dos Três começa exatamente onde termina O Pistoleiro. Roland está caído próxima a praia onde havia ficado desacordado por dez anos após sua confabulação com o Homem de Preto. Lagostrosidades, animais que mais parecem cães infernais, aproveitam-se de um Roland cansado e sonolento para ataca-lo. Resultado: o pistoleiro perde dois dedos da mão direita. Agora mutilado e apresentando uma infecção em decorrência da mordida das Lagostrosidades, Roland segue em busca da Torre.

Se no primeiro volume as narrativas mais pareciam uma perseguição num deserto infinito e opressor, neste há uma mudança na forma narrativa o que será a tendência dos próximos livros. Esta diferença é justificável tendo em vista o hiato entre uma obra e outra. A série que aparentemente tentava emular a Saga do Anel começa a se distanciar e tomar sua forma. É a partir deste volume que vemos como King pretende continuar sua narrativa. E a mudança não poderia ser melhor.


No primeiro volume, temos algumas breves indicações dos hábitos e costumes de Roland e seu mundo. Aqui, as coisas são aprofundadas e alguns conceitos são explicados como o conceito de Ka e Ka-tet. O primeiro, seria um conceito muito parecido com o que chamamos de destino, já o segundo seria a junção de pessoas ligadas pelo mesmo destino. Então, temos Roland seguindo seu caminho, ou Ka, em busca de seu Ka-tet.

Após uma longa caminhada,o pistoleiro acaba por encontrar três portas sustentadas por nada na beira da praia. Cada uma com uma inscrição: O Prisioneiro, A Dama das Sombras e O Empurrador. Roland precisa atravessar essas portas que levam ao encontro de seu Ka-tet. E é aqui que as coisas ficam ótimas.

A lentidão narrativa de King não é nenhum empecilho nesta narrativa. Os detalhes são muito bem delineados trazendo uma veracidade insidiosa. Este excesso de explicação é de muita importância na apresentação dos novos personagens. E assim somos apresentados aos novos integrantes do KA-tet do pistoleiro. O primeiro, Eddie, um viciado em heroína  que se encontra em uma situação complicada para atravessar um carregamento de droga; a segunda, Odetta Holmes, uma negra ativista perdeu metade das duas pernas após ser empurrada em frente a um trem e que guarda dentro de si mais de uma personalidade; e por último, Jack Mort, que foi o responsável, além da morte de Jake, que conhecemos no livro o Pistoleiro (vá então, há outros mundos além deste), é também o homem que empurrou Odetta Holmes na frente do trem.


A sacada genial de King de como se dá a passagem de Roland por essas portas é bem geniosa. É uma surpresa perceber o que ocorre com o pistoleiro no nosso mundo  e, as descrições dessa parte são bem interessantes e necessárias para sabermos como pensam nossos novos personagens. E que personagens. Cada um deles tem uma  complexidade envolvente somados a alguns problemas de caráter – ou não – de cada um.

Enquanto Eddie se afunda mais e mais nas drogas e vê no irmão Henry uma espécie de herói da decadência, Odetta sofre do transtorno de dupla personalidade e, uma das personalidades, faz com que ela acaba se revelando alguém nada ortodoxa em suas atitudes. Porém, ainda que apresentem seus problemas nota-se que eles possuem suas qualidades. A presença desses personagens ampliam o horizonte da saga ao plantar a dúvida de como Roland irá tirar proveito dessas parcerias, uma vez que tanto Eddie quanto Odetta apresentam sérios problemas. Além disso, a infecção de Roland avança e se não conseguir se tratar, de nada adianta essa ampliação do grupo.

Quanto a Jack Mort, ao contrário do outros dois que apesar dos problemas carregam em si um “Q” de bondade,  este não deixa espaço pra nada dentro de si além da maldade. Em uma rápida olhaad em seu íntimo, Roland sabe que não pode contar com ele e acaba por tomar uma atitude que pode ter desdobramentos catastróficos para ele.

Para muitos, é aqui que realmente começa A Torre Negra. Se no primeiro volume temos um monte de questão levantadas e não respondidas, neste, a narrativa é mais coesa. Há uma preocupação do autor em não levantar uma miríade de indagações que não podem ser respondidas prontamente, sendo assim, o clima meio confuso do primeiro livro fica de fora.

King sempre foi um autor que soube moldar seu personagens para que não parecessem muito genéricos. Há uma profundidade de camadas que fazem o leitor se apegar, odiar e surpreender com cada um deles. Não há como passar indiferente.

Ao final da narrativa, há uma expectativa salutar de que King realmente conseguiu criar algo grandioso mas que continua pecando em amarrar certas pontas da história principal que é a busca pela torre. Agora é esperar os próximos episódios...

Boa leitura.


Livro: A Escolha dos Três (A Torre Negra #2) 
Páginas: 416
Autor: Stephen Kung
Editora: Suma de Letras
Comprar: Amazon
Nota: