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Filme "Extraordinário" é uma manual prático de como emocionar o espectador...


A única razão de eu não ser comum é que ninguém além de mim me olha dessa forma
(August Pullman)
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Um dos grandes desafios de adaptar uma obra literária para as telonas é conseguir captar a essência da obra original e reproduzi-lá em outra mídia. São muitos os casos de livros de sucesso que solaparam violentamente quando foram para às telonas. Quando o livro em questão tem seu ponto forte em emocionar o leitor, fazer emergir esta mesma emoção no telespectador, sem se tornar uma coisa pedinte e melosa, é mais difícil ainda. Graças ao lado luminoso da Força, não é o caso da obra em questão, pois o diretor Stephen Chbosky conseguiu fazer algo Extraordinário (hahah, perdoem-me, não deu pra segurar o trocadilho...)

Adaptado do livro homônimo de 2013 da autora R.J. Palácio (resenha AQUI), Extraordinário conta a história de Ausgust Pullman, um garoto que nasceu com problemas genéticos graves o que determinou que ele apresentasse uma aparência diferente. Educado por sua mãe em casa, Auggie foi meio que criado dentro de uma redoma de amor e proteção dos males externos por sua família. Porém, seus dias de tranquilidade são abalados quando seus pais decidem matricula-lo em uma escola regular para cursar a quinta série...

O filme é dirigido por Stephen Chbosky. Ele já dirigiu outra adaptação muito carinhosa e querida pelos fans, As Vantagens de Ser Invisível. Aqui, ele soube mesclar o emocional com humor de forma precisa levantando questões relevantes para nossa convivência como ser social: o diferente é ruim?  por quais motivos vale à pena lutar? O quanto deixamos de enxergar quando nos focamos demais em  um ponto só? Crianças são sempre inocentes? É tão difícil assim ser gentil? Será que minha vida é realmente tão pior que a sua? São perguntas que vão sendo feitas no decorrer da trama e aparecem sempre nos momentos certos de cada cena. Muitas delas mexem com nossos sentimentos nos fazendo reavaliar muitas coisas sobre os outros e principalmente, sobre nós mesmos. Mas o autor sabe dosar o apelo emocional do filme com cenas engraçadas o que suaviza a narrativa. Li o livro e tinha receio que fizessem um negócio sentimentalóide com o objetivo de trazer emoções de forma gratuita. Não foi o caso. E tudo isso funciona, também, pela escalação do elenco...

Olwen Wilson faz o pai de Auggie, um cara engraçado que sabe que o mundo lá fora tem tudo pra dizimar o filho mas tenta levar tudo com muito bom humor; Isabel Pullman ( Julia Roberts)  a mãe de Auggie, que basicamente parou sua vida pra “viver” a do filho. Abnegada, não mede esforços pra tornar o mundo de Auggie melhor o que acaba deixando-á míope para outra coisas como a filha mais velha, Via Pullman (Izabel Vidovic), que aprendeu a viver à sombra do irmão de forma até compreensiva, Porém, como qualquer um de nós precisa de atenção e sente que é deixada de lado...

A vida na escola não é fácil para Auggie. Acostumado com os olhares assustados das pessoas, ele não está preparado para uma das faces abstrusas da psiquê humana: bulliyng. Apesar dos cuidados que o diretor da escola toma, é complicado controlar crianças quando estas decidem serem más e há um deles,  que é particularmente terrível. Mas o autor faz uma pergunta sobre o porque deste garoto ser ruim e a resposta pode estar externa à ele: há uma cena com os pais dele conversando com o diretor mostrando o quanto podemos incutir em nossas crianças comportamentos negativos e execráveis pautado num manto de que temos o direito para tal...

E, claro, um bom filme com crianças no elenco não pode faltar amizade. Will (Noah Jupe) acaba se aproximando de Auggie a pedido do diretor mas acaba realmente gostando dele. Mas, nem todos os outros alunos gostam do novo aluno e ir contra o comportamento dos outros à sua volta requer muita presença de espirito e foco naquilo que ser quer. Por isso, em uma determinada cena da festa de Halloween, Will faz algo que acho "compreensível" e evidencia o quanto às vezes, trabalhamos para manter perto pessoas ou algo que nem queremos de fato. Fazemos somente para pertencer, pra não ser o diferente...

Reparem que não falei muito de Auggie. Pois bem, é de proposito. Se fosse falar aqui sobre ele, este texto ficaria do tamanho de uma monografia tão amplo os ensinamentos que este garotinho nos traz. Vivido de forma ótima por Jacob Tremblay, Auggie sabe que é diferente mas não quer nada melhor nem pior que os outros: só quer ser comum. E o desenrolar da sua vida com aprendizados e percas é de encher os olhos de tão emocionante. Há uma cena no final do filme, num acampamento de verão em que Auggie e Will tem um determinado problema mas que graças a alguns fatores (pessoas?) que eles não imaginavam, conseguem se safar que é phoda. O diretor conseguiu transmitir tudo o que aquilo representou para Auggie sem dizer nada. Só mostrou. Foi foda pá caráleo (fiz um esforço “daqueles” pra não chorar... =) e aquilo toca a gente de forma tão profunda e me lembra que em alguns momentos, gestos tão simples podem significar uma vida inteira...

Belo, engraçado, emocionante e cheio de aprendizagens, Extraordinário faz jus ao material fonte entregando um filme bonito que deve ser apreciado por todos aqueles que tencionam tornar-se algo melhor do que são agora. São lições pra se levar pra vida toda pois como disse o diretor Buzanfa: “se forem apenas um pouco mais gentis que o necessário, alguém, em algum lugar, algum dia, poderá reconhecer em vocês, em cada um de vocês, a face de Deus...”  


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Extraordinário (Wonder, EUA 2017)
Roteiro: Jack Thorne, Steve Conrad, Stephen Chbosky (baseado em romance de R.J. Palacio)
Direção: Stephen Chbosky
Elenco: Jacob Tremblay, Julia Roberts, Owen Wilson, Izabela Vidovic, Danielle Rose Russel, Noah Jupe, Millie Davis, Bryce Gheisar, Mandy Patinkin, Daveed Diggs, Nadji Jeter, Ali Liebert, Elle McKinnon, James Hughes, Ty Consiglio, Crystal Lowe, Kyle Harrison Breitkopf, Sonia Braga 
Duração: 113 min.

[CRÍTICA] filme, Frances Ha

É impossível não se sentir uma pessoa um pouco melhor após assistir os 86 minutos desta história. Pautado em uma ideia que soa repetida, Frances Ha consegue se distanciar dos filmes homólogos com um roteiro elegante, uma direção acurada e  uma história de vida inspiradora
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Nota: ★★★★★

A personagem título, Frances Ha, uma jovem que trabalha em uma companhia de dança como assistente pois não possui talento suficiente para fazer parte da elite da companhia, divide um apartamento com sua melhor amiga onde ambas vivem uma vida que quase se confundem: tem ideias parecidas sobre o mundo, dormem na mesma cama (Frances costuma afirmar que “somos como duas lésbicas casadas há muito tempo, que não fazem mais sexo”), não deixam ninguém interferir em suas vidas – principalmente homens – e não sabem muito bem o que fazer da vida.

Às coisas mudam quando a amiga de Frances decide se mudar para um outro imóvel com outra amiga. Daí em diante vemos como Frances, uma mulher de 27  anos mas que mais parece uma adolescente se comporta ante os dissabores da vida.

Filmado em preto e branco, o filme, num primeiro momento, parece querer usar deste artificio para evocar uma áurea de cool, porém, toda sua trama e diálogos não deixam que essa pretensão soe vazia trazendo uma história bela e divertida para esta fotografia. A cena em que ela corre feliz e dançante pelas ruas de Nova York ao som de “Modern Love” de David Bowie porque recebeu uma notícia positiva sintetizam toda essa beleza em película. E o principal motivo disso é a personagem central.

Frances (interpretada de forma excepcional por Greta Gerwig que também assina o roteiro), que parece meio maluquinha e por vezes toma atitudes impensadas, vive em uma espécie de sonho continuo: ser uma grande dançarina, conhecer o mundo, viver eternamente ao lado da amiga são suas motivações. Quando tudo isso desmorona, ela se vê diante de novos desafios mas sem perder a leveza quase inocente de antes. Ver que os tropeços de Frances nunca conseguem tirar sua alegria e júbilo ante as pequenas dádivas da vida, servem de estímulos para todos nós que por vezes deixamos de enxergar que, às vezes, nem tudo está perdido. E é encarando esses obstáculos que ela acaba encontrando seu lugar no mundo sem mudar o seu eu.

Frances Ha é daqueles filmes para se assistir de tempos em tempos e ver que na vida, nem sempre o que a gente quer da certo e é preciso procurar novos rumos. Isso sem perder os sorriso no rosto.


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Frances Ha (Frances Ha, EUA, 2012)
Gênero: comédia, drama
Roteiro: Noah Baumbach, Greta Gerwig
Direção: Noah Baumbach
Duração: 86 min. 

[CRÍTICA] filme, Projeto Flórida

Projeto Flórida explora um lado triste da realidade americana sobre a ótica de uma criança que, mesmo em dificuldades, mantém-se assim: criança.
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Nos primeiros minutos do filme Projeto Flórida, quando acompanhamos Moonee (Brooklynn Price), uma garotinha de 6 anos, junto com seus amigos cuspindo no para brisas de um carro, notamos que o diretor está ali pra mostrar a realidade de um grupo às margens da riqueza sob a perspectiva dos pequeninos. A câmera que está quase sempre na altura dos olhos de Moonee e sua trupe nos submergem neste mundo sob  ótica deles. Isto serve, também, para observarmos as coisas com um olhar quase  infantilizado, porém, no decorrer do longa o diretor mostra que tem muita seriedade sendo tratada ali.


Em uma entrevista sobre seu filme anterior, Tangerine, filmado com a câmera de um iPhone, o diretor Sean Barker  declarou : “há algo sobre áreas caóticas que me intrigam”. Caótico! Talvez seja  este o termo que melhor sintetiza a história dirigida pelo diretor que tem atração por um lado da realidade que ninguém vê e, no caso em questão, ele trata de famílias que vivem em hotéis baratos em Orlando e no meio deste turbilhão acompanhamos a pequena Moonee curtindo suas férias de verão.

Morando no hotel curiosamente chamado de Magic Kingdom – mesmo nome de uma atração da Disneyland, acompanhamos Moonee e suas travessuras com seus colegas enquanto sua mãe, Halley (Bria Vinaite), relapsa e sem saber o que fazer da vida, não deixa de dar carinho a filha e o que ela acredita ser uma boa educação mesmo ela não sabendo muio bem o que fazer com sua própria vida. Pra tentar por ordem no lugar, que conta com outros desafortunados, há o gerente Bobby (William Dafoe), que parece durão mas que faz de tudo pra manter as coisas no lugar, nunca julgando ninguém e servindo até como uma espécie de guardião dos pequeninos.

Esta realidade, de pessoas vivendo com tão pouco ao lado de um dos maiores centros turísticos e idealizados do mundo (há até uma cena interessante envolvendo o deslumbre que nós brasileiros temos pela Disney), vai sendo nos apresentada aos poucos de forma dura, sem maquiagem e atenuantes. E sempre sobre a perspectiva de Moonee. Às cenas com ela na banheira são mostra disso pois só sabemos o que sua mãe está fazendo nestes momentos quando ela, Moonee também descobre. Neste ponto, assim como Moonee, ficamos um pouco sem palavras pois apesar do comportamento irresponsável da mãe outra pergunta vem a à tona: o que mais ela pode fazer? E, após mais uma atitude impensada de Halley, ficamos angustiados pois sabemos que o futuro delas, mãe e filha será alterado de forma radical.

Toda esta construção de situações e personagens passa por uma direção pontual e um roteiro assertivo e que fica maximizado com as interpretações. William Dafoe numa interpretação contida consegue apresentar toda uma gama de sentimentos com o olhar e os trejeitos. Sabemos pouco do seu passado mas seus gestos e feições dão conta de mostrar que apesar de tropeços da vida ele ainda tenta ser alguém decente. Brooklynn Price dá um show na pele de Moonee. Ela rouba toda as cenas com sua presença forte e nos faz torcer ainda mais para que tudo dê certo para ela e sua mãe. Ainda por cima, esta escolha do diretor de maximizar o olhar infantil faz com que os pequenos momentos de felicidade - como uma aniversário celebrado à bordas dos fogos de artifício da  Disney - sejam vistos quase como mágicos. A cena final – voltaremos à ela mais tarde – com Moonee e sua amiga é quase impossível não chorar. Esta garota promete.

Projeto Flórida, que também foi o nome que Walt Disney deu ao seu sonhado parque é um retrato de um mundo dos desvalidos que só tem eles mesmos com quem contar e, ver como as crianças encaram este mundo, sobre a perspectiva de um diretor que gosta do caótico, é ver que no fim das contas, elas continuam sendo isso, crianças. Isso fica bem observado na cena final quando Moonee, num desfecho inevitável da sua situação, corre até sua amiga e, juntas, decidem dar um rumo diferente as coisas que só é possível vivendo no Magic Kindon (reino mágico) das crianças.  

Nota: ★★★★★

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Projeto Flórida (The Florida Project, EUA, 2017)

Gênero: Drama

Roteiro: Sean Barker
Direção: Sean Barker, Chris Bergoch
Duração: 115 min.

[RESENHA] Servidão Humana | um ode a inquietação, abismos e asas...

Neste misto de autobiografia e ficção, o final da jornada só é superado pelo caminho feito até ali...


Nota: ★★★★★

Se você me perguntar como cheguei a este livro a resposta é a seguinte: Se7evn – os sete pecados capitais. Caso você não tenha visto este filme, veja e saberá do que estou falando. Nunca havia lido nada do autor e fiquei maravilhado com sua escrita que consegue criar uma imersão profunda pautada na vida de sofrimento e superação do personagem central que tem um "Q" de autobiografico...

No livro somos apresentados a Phillip Carey que nasce com uma deformidade no pé que sempre será um ponto fraco físico e psicológico. Não bastando isso, a roda indiferente do destino fez com que o personagem perdesse os pais e fosse criado pelos tios que atados a compromissos religiosos com a paróquia, não tem tempo (talvez vontade?) de dedicar o amor que Phillip necessita - principalmente o tio. Doravante, acompanhamos a vida de Phillip, desde sua educação primária com forte viés religioso, passando pelo descobrimento dos prazeres sexuais, as mudanças na forma de ver e se relacionar com o mundo e, talvez o que, num primeiro momento chama mais atenção, sua relação de amor e ódio com Mildred...

Servidão Humana foi escrito no ano de 1915. Como muitos autores da época, William Somerset Mugham, em seus primeiros livros, faz uma mescla de sua vida e ficção: se no livro o Phillip é claudicante, William é gago; ambos estudaram em escolas religiosas e, posteriormente passam a ver a religião como algo claustrofóbico que serve mais para escravizar do que salvar o individuo...

Passeando por muitas searas do conhecimento – arte, filosofia, história, religião... – o autor consegue discorrer com maestria por todas elas de forma profunda, reflexiva e de agradável leitura – ficando só um pouco cansativo os momentos em que ele se alonga em demasia por vários parágrafos discorrendo sobre alguns pintores...

Independente de partilhar ou não com a visão do autor, é inegável que suas ideias tem um embasamento forte o que no mínimo gera um ponto de interrogação na cabeça do leitor. Principalmente no que concerne ao campo da religião: neste tema específico, vemos como Phillip vai aos poucos deixando que mais e mais incertezas tomem forma em sua mente fazendo com que as regras e dogmas cristãos fiquem de lado ante suas próprias sensações e vivências...  

E apesar de flutuar por muitos temas abstratos e intelectuais, o autor não deixa de lado as relações humanas. Assim, vemos a avareza e desejo de nortear a vida de seus pares na figura de seu tio, ou a da boêmia que leva ao ocaso na figura de um conhecido escritor que Phillip conhecera em Paris. Tudo isto feito de forma não apenas a te jogar informações mas para que você sente-se de frente para o espelho e pense: e eu, como vejo tudo isso? Mas, falar de servidão Humana e não citar a relação de Phillip e Mildred é impossível...

Desde as primeiras aparições de Mildred, o autor já deixa claro que ela terá um papel importante no sofrimento e, posteriormente, amadurecimento de Phillip. A forma como ele decide abordar esta relação imprime uma inquietação e até um dose de raiva: as humilhações que Mildred impõem a Phillip remetem aqueles relacionamentos em que uma das partes crê que de uma hora para outra o outro irá se transformar ante o amor lhe dispensado e toda sorte de sofrimento irá acabar. E neste caminho, Phillip, além de sofrer e amargar o dissabor da desilusão, acaba deixando de abraçar outras oportunidades de ser feliz...

Mas esta relação é uma espécie de microcosmo representando toda a vida de Phillip. Sua desilusão com a religião, a descida até a miserabilidade culminando com o limiar da fome até a redenção na figura de um conhecido, traçam um paralelo com a relação nada sadia dele e Mildred. É como se os picos de felicidade entremeados com longos períodos de sofrimento fossem uma extensão direta de sua devoção quase mística a Mildred...

Ler Servidão Humana é mergulhar num mundo onde as certezas sobre o que se é e como se vê as coisas são apenas borrões. Não há nada definido e no percurso de se encontrar no mundo você é jogado no mais puro abismo. Porém, ao se ver envolto nas asas das incertezas e das angústias, para aqueles que não se deixam sucumbir, é possível vencer os muros das próprias barreiras psicológicas e alçar vôos até então inimagináveis...

Boa leitura

Servidão Humana ( Of Human Bondage, 1915)
Páginas: 605
Autor:  William Somerset Mugham
Editora: Globo

[RESENHA] O Silêncio das Montanhas, de Khaled Hosseini

Antes de ser um livro sobre a separação ainda na infância de dois irmão, O Silêncio das Montanhas é um retrato emocionalmente triste e inevitável das angústias que todas as relações humanas acarretam...


Nota: ★★★★★

Algumas histórias tem o dom de nos fazer ter esperanças mesmo que o mundo esteja desabando ao nosso redor. Outras tem o dom de nos divertir e ver que a vida pode ser levada de forma leve. Mas algumas parecem que foram feitas com o intuito de abrir nossos olhos para uma realidade onde nem sempre tudo é possível e mesmo a felicidade, quando chega, não é tão colorida e vem mesclada com um tempero agridoce. É o caso do ótimo “O Silêncio das Montanhas” de Khaled Hosseini. Chegar ao ponto final do livro e não sentir um aperto no peito, quase como uma facada, é como caminhar no deserto e não ter sede. Só é possível se você tem alguma parte do cérebro desligada que te impossibilite de se emocionar, de sentir empatia. De ver que o mundo, ainda que cheio de possibilidades maravilhosas, pode ser um lugar cruel e que a nossa vida nem sempre é guiada por aquilo queremos.

Quando lançou o ótimo "O Caçador de Pipas" no ano de 2003, Hosseini conseguiu emocionar milhares de leitores com sua escrita que penetra o fundo da alma humana. Não há como negar que ele é um ótimo contador de histórias. Em O Silêncio das Montanhas, o autor aplica uma narrativa um pouco distinta do que estamos habituados em suas obras, mas não esconde seu verdadeiro trunfo como escritor: nos emocionar.

No livro, acompanhamos a vida de Pari e Abdullah, duas crianças que tem um laço mais forte que o fraternal que as une. É como se pertencessem a faces diferentes da mesma moeda. Impossível dissociar um do outro. Porém, a vida nem sempre funciona como a gente quer e por motivos extremos, Pari e Abdullah são separados. Aí, temos a saga de duas almas que seguirão suas vidas com oceanos de distância mas o reflexo delas, uma na outra, sempre será uma presença constante.

A narrativa fragmentada que  serve para mostrar diversos pontos de vista de uma história maior, pode afastar alguns leitores, haja vista a dificuldade de num primeiro momento, relacionar-se sentimentalmente com o enredo. Porém, se você se enquadrar nesse grupo, faça um esforço e dê uma chance a este livro. Mesmo parecendo uma coleção de contos que se entrelaçam, a narrativa é coesa e abre espaço para um alcance maior e serve o objetivo do autor que é nos mostrar as intrincadas relações da vida,  

Apesar de ter como foco principal a vida de Pari e Abdullah, o livro é uma viagem por gerações e personagens onde atitudes tomadas por um, reflete-se de forma incomensurável na vida do outro. É uma gama gigante de personagens, vilas e países que de forma direta ou indireta aglutinam-se para rebater na vida de Pari e Abdullah. Claro, em se tratando de Kaled Housseini, a guerra não poderia ficar de fora.

É impossível fazer um panorama do Afeganistão retratando o modo de vida e de pensar de seu povo sem mencionar este mal que independente dos avanços tecnológicos e humanistas que nossa espécie tenha alcançado, consegue parecer etéreo ao homo sapiens. Mas de forma sábia o autor não foca no conflito em si. Ele prefere focar-se na vida de gente comum que não pediu pra que a guerra acontecesse mas que vê sua vida jogada num carrossel de acontecimentos quase inverossímeis.

Uma parte muito reflexiva da narrativa é o modo que o autor descreve como os afegãos que permaneceram no país no decorrer do conflito enxergam aqueles que se evadiram. É como se não fossem dignos de chamar aquela terra de sua, e independentemente de estarem corretos ou não, quem pode censurá-los? Ainda há uma crítica leve, porém marcante, àqueles nativos que decidiram lucrar em cima das pessoas e organizações que se dispuseram a ajudar na amenização do sofrimento do povo. São momentos que valem a reflexão sobre nós como seres sociais, éticos e religiosos. E vale ressaltar que o autor faz isso não forma didática mostrando onde e como devemos pensar. Isso é feito de forma orgânica e de mansinho. Quando você se dá conta já está pensando sobre você como um ser social e em suas atitudes e se questionando se realmente tem sido alguém digno de nota.

Apesar de toda tristeza que permeia a obra e um final que parece caminhar para um fim melancólico e injusto, Kaled Housseini faz questão de deixar uma chama acesa de esperança na tentativa de mostrar que por mais infeliz, trágica e injusta que seja a vida, ainda é possível vislumbrar coisas boas para um futuro que mesmo assustador, pode ser incrível, belo e cheio de surpresas boas.  


Boa leitura

O Silêncio das Montanhas (And the Mountains Echoed , 2013)
Páginas: 350
Autor: H. Khaled Hosseini
Editora: Globo Livros
Comprar: AMAZON

[CRÍTICA] filme, Ela


Mesmo com anos de mudanças em nossos hábitos e costumes, existem sentimentos que hão de perdurar, possivelmente, enquanto a espécie humana existir. Ainda que nem sempre nossos sentimentos sejam nossos melhores aliados, por vezes, somos tomados por essa força avassaladora que desafia a lógica. E dentre a gama ampla de sentimentos, talvez o amor seja o mais forte de todos. Mas, o que seria passível de amar? Amamos animais, carros, dinheiro, objetos. Porém, nada disso se compara ao amor que dispensamos a outras pessoas. A vontade de compartilhar a vida com mais alguém está entre um dos costumes e vontades mais latentes do ser humano. E se essa vontade de viver junto, esse amor, ao invés de ser por uma pessoa fosse por uma máquina. Mais especificamente, um programa de computador? Será que há um limite para aquilo que podemos amar?

É sobre essa premissa, amor e tecnologia, que o engenhoso diretor Spike Jonze dirigiu e escreveu o fantástico filme Ela (2014). Ambientado num futuro com novidades tecnológicas proeminentes, mas que não tem a soberba que muitos filmes do gênero têm, o longa mostra Theodoro Twombly (Joaquim Phoenix), um homem que trabalha escrevendo cartas sentimentais para outras pessoas e está passando por um processo de divórcio que acaba deixando-o abalado. Theodoro é um homem sensível e sentimental. Apesar de manter uma distância de seus pares, está longe de ser solitário. No momento, vive as angústias que um divórcio acarreta. Um dia, adquiri um programa de computador que seria um sistema de inteligência artificial. De início, o programa apenas o auxilia em suas organizações, posteriormente, o programa se auto-intitula Samantha (voz de Scarlett Johansson), e Theodoro acaba por se apaixonar por ela.

O filme é de uma precisão cirúrgica e de uma beleza avassaladora. Dramático, engraçado, romântico, triste, lúdico, filosófico, belo; o longa consegue desfilar por todas essas nuances sem se perder em nenhuma delas sabendo dar espaço a cada uma explorando um roteiro bem feito e eficiente. A relação entre Theodoro e Samantha, por mais que pareça estranha num primeiro momento, acaba tornando-se plausível graças a eficiência do diretor e das interpretações de seus atores. A história deles, que é linda, sabe tirar do espectro das relações, uma poesia que toca aquele "eu latente" em todos nós, que ânsia por deixar a abstrusidade e emergir numa superfície lúdica e poética. algo belo assim,   Há um cuidado em não aproximar o longa dos romances clichês e quando há uma convergência para filmes simplistas do gênero, o autor trata logo de cambiar os rumos da narrativa aproveitando da liberdade que a ficção cientifica possibilita em certas ocasiões.

Os diálogos são incríveis e conseguem transmitir toda a carga emocional que um relacionamento traz consigo: felicidade, cumplicidade, companheirismo, dúvidas, ciúmes, sexo. Por falar em sexo, há uma cena com a personagem Isabella, vivida pela atriz Portia Boubleday, que mostra toda a dificuldade deste relacionamento. Chegando ao ponto de ser bizarra, não no sentido de destoar da narrativa, mas sendo bizarra em si, a cena acaba pontuando como certas barreiras são difíceis de serem vencidas.

A cinematografia é excelente. Toda filmada em tons pastéis, ela salienta o caráter lúdico do amor e do relacionamento de Theodoro e Samantha. Há uma espécie de magia na atmosfera que evoca um lirismo etéreo. O figurino é engenhoso. Apesar de passar numa Los Angeles do futuro, as roupas evocam uma época passada, dos anos 1960, 70 combinando perfeitamente com a fotografia. A trilha sonora é sútil e eficiente, dando a impressão de ser algo orgânico do filme.

Ainda assim, o que deixe tudo mais plausível é o elenco. Joaquim Phoenix está excelente no papel. Ele consegue transmitir toda a alegria, tristeza, amargura e dúvidas de Theodoro.  É impossível não sentir um pouco do que ele sente, e isso de forma quase osmótica. Poderia facilmente estar entre os indicados ao Óscar. Scarlett Johansson é outra que destrói. Apesar de não aparecer fisicamente, seu trabalho de voz insufla nos espectadores toda uma inquietação. Ora dúvidas sobre suas intenções, ora pena. Em outros momentos, sua sensualidade transborda. Aqui, ela mostra que mesmo sem seus atributos físicos que tanto chamam atenção, ela consegue manter um local entre os astros de seu tempo.

O resto do elenco, apesar de não ter o mesmo espaço da dupla, estão confortáveis em seus papéis. Amy Adams, faz o papel de Amy, amiga de Theodoro que passa por problemas semelhantes ao dele. Está longe de apresentar a intensidade que a atriz mostrou em A Chegada, porém, ainda assim, mostra que é uma atriz talentosa. Rooney Mara, que faz a ex-esposa de Theodoro, faz uma interpretação contida salientando as dificuldades de um relacionamento que aparenta dar mostras de querer continuar. Olivia Wild e Crhis Pratt também estão no elenco e estão ok em suas atuações.

Mais do que ser uma história de amor, o filme é sobre  o amor. É difícil passar os 130 min. indiferente ao que se vê na tela. Mesmo com a premissa hipotética de amor à máquina, o filme faz questão de trazer dramas que trazemos conosco e nem sempre temos a sabedoria de driblá-los com eficiência e apesar de uma certa amargura e pessimismo, Jonze sabe dosá-las para que não deixem um gosto de amargura ao final da trama.   

Numa época em que mais e mais, temos a tecnologia como ferramenta de interação social, o filme vem para nos questionar até que ponta ela é real ou não. Se nossa mente está realmente preparada para este tipo de inovação. E o diretor tem o cuidado de não se prender a essas questões de forma distópica. Ele vislumbra um futuro onde esta possibilidade está presente mas que não é boa ou má intrinsecamente: apenas existe e são nossas atitudes que mostraram os aspectos de sua qualidade. Assim como quase todas as interações humanas. Mais que isso, ele deixa claro que nossas fraquezas e qualidades, não ficam em um segundo plano ante as tecnologias: elas se acentuam.

Em um mundo onde as rodas de amigos, cada um conversa com um olho e um dedo no teclado, este filme é mais que um relato de amor. É sobre os sinais dos nossos tempos. 

Ela (Her, EUA, 2013)
Gênero: Romance, ficção cinetífica, drama
Roteiro: Spike Jonze
Direção: Spike Jonze
Duração: 130 min.

[CRÍTICA] filme, CONTA COMIGO

Nessa obra prima - baseada em um conto de Stephen King - vemos como as amizades da infância irão seguir conosco pelo resto de nossos dias. 



Dizer que Stephen King é o  mestre do terror é algo comum. A mente que criou ícones do gênero como It, O Cemitério e O Iluminado consegue conceber histórias que assustam muitos marmanjos por aí. Mas, às vezes, o medo presente nas obras do autor não é algo tão implícito. No filme Conta Comigo, baseado no conto Outono da Inocência: O Corpo – presente na coletânea As Quatro Estações, King nos mostra uma jornada de aprendizagem, amizade e, de forma sutil o medo da perca da inocência.

Vale ressaltar que a história tem um cunho biográfico forte. King, quando tinha doze anos, passeava por áreas de reservas florestais do estado americano do Maine quando encontrou o corpo de um rapaz que havia desaparecido há algum tempo. A exemplo de um dos personagens do conto, também perdera um irmão num acidente e tornou-se escritor na vida adulta.  King pegou suas lembranças, mesclou com sua mente prodigiosa e nos entregou esta obra prima. Mas, deixemos King de lado e concentremo-nos no filme.