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[RESENHA] 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Arthur C. Clarke



Este ano o filme "2001: Uma Odisseia No Espaço" completou cinquenta anos. Mesmo que você seja um daqueles que não suporta o filme, acha chato e superestimado, há de concordar que a obra de Stanley Kubrick foi um marco na história do cinema. E este filme teve como base um livro de um dos maiores escritores de ficção cientifica de todos os tempos, Arthur C. Clarck. E, o que Clarke escreveu acerca da inteligência artificial é um medo que tira o sono dos pensadores e cientistas atuais. Além disso, no livro, há aquela especulação que desde a aurora da humanidade vem gastando nossos neurônios: afinal, estamos sozinhos no espaço? 


O livro aborda o processo de evolução do homo sapiens e de como teria dado esta evolução. A ideia de escrever este livro surgiu de forma quase que coletiva. Stanley Kubrick leu um conto de Clarke intitulado "A Sentinela" e conversou com o autor sobre um filme com a mesma temática. Assim, livro e filme foram feitos de forma simultânea com Clarke contribuindo para o roteiro cinematográfico. E, apesar de terem, basicamente, a mesma história, ambos distinguem-se pelo tom: no filme, há uma certa ausência de explicações já no livro, apesar de não ser totalmente acadêmico te explica quase tudo. QUASE TUDO!!!

O livro começa em uma época onde os seres humanos ainda nem existiam. Nossos ancestrais hominídeos viviam de forma selvagem naquela busca incessante por alimento e fuga dos predadores. Tudo muda quando um determinado artefato retangular, um monolito surge de forma inexplicável carregado de segredos...

Esta primeira parte, pra mim foi a melhor. A descrição do cotidiano desses primatas é de uma riqueza de detalhes que impressiona. É como se Clarke tivesse pego uma máquina do tempo e registrado em diário a vida deles e depois nos apresentado. Me lembrou muito um dos melhores livros que eu já li que trata da história da evolução do homem, Sapiens: Uma Breve História da Humanidade de Yuval Noah Harari...


Após o surgimento deste artefato e de como ele influenciou a vida desses primatas, temos um pulo temporal gigantesco e já estamos em 2001 onde uma expedição comandada pela NASA precisa averiguar uma determinada anomalia na lua... 


2001 é um livro sensacional. É daqueles achados que impulsionam a pensar nas possibilidades imensas que o universo abriga. Apesar dos temas complexos como viagem espacial, astronomia, física, inteligência artificial e mais um monte de outras coisas,  Arthur C. Clarke consegue esmiuçar tudo de forma clara sem deixar que os temas abordados se tornem enfadonhos. Há muitas questões existenciais (mais sobre isso adiante) abordadas e apesar daquelas mais óbvias sobra espaço para aquelas que não estão no primeiro plano como solidão. Tudo isso é levado ao leitor de forma harmônica que te instiga a manter a leitura...

Porém, falar de 2001 e não citar Hal 9000 é impossível.

O computador criado pela  empresa de tecnologia IBM o computador que não deveria cometer erros se torna sensiente, acaba enlouquecendo e isso traz momentos de debate intensos (Inclusive a famosa frase dita pelo comandante Jack Swigert da Apolo 13 “Atenção Huston, temos um problema” foi dita um ano antes pelo astronauta fictício).  

Citando mais uma vez Yuval Noah Harari, desta vez sobre a ótica de seu outro best seller “Homo Deus”, inteligência artificial é questão de tempo. E como nos será nossa sociedade e, de forma mais íntima, nosso modo de ser e agir ante seres que terão uma capacidade de processamento maior que a nossa. Dentro da ficção através dos tempos, isso marcará o dia de nossa derrocada. Ideia que Harari partilha com ressalvas. Historicamente o homo sapiens dobrou as outras formas de vida à sua vontade por ser dotado de uma inteligência superior. O que ocorrerá com nós quando não formos mais os preferidos de deus.

Por falar em divindades, outro sub-texto nisso seria o papel de Deus. Não vou entrar em detalhes para não dar spoilers mas toda a narrativa é carregada com informações que pode por em cheque o homem como centro do universo. Aliás, o final do livro é de uma viagem literal e mental de encher os olhos. Só uma mente que sempre ousar testas os limites do possível para conceber algo neste nível.

Ler 2001 é viajar por um mundo probabilístico onde as certezas existenciais e antropológicas são postas à prova num jogo que o limite das realidades do universo são alargadas ao máximo. Existem mais duas sequências formando uma trilogia e talvez este seja o único problema do livro...

Muitas respostas são deixadas, possivelmente suas sequências deixando um certo vácuo de entendimento da história. Mas nada que impeça de apreciar a obra.  Vá, leia “esta viajem”, será uma sensação ímpar...

Obs.: só um aviso, caso tencione ver o filme homônimo faça antes de ler o livro o conto. Ambos acabaram por diminuir o impacto causado pelo filme...

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2001: Uma Odisseia No Espaço ( 2001: A Space Odyssey, Inglaterra, 1968)
Páginas: 336
Autor:  Arthur C. Clarke
Editora: Aleph
Comprar: AMAZON




[RESENHA] Laranja Mecânica, de Anthony Burgees


Longe o profeta do terror que a Laranja Mecânica anuncia...
(Alucinação – Belchior)
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Laranja Mecânica é daqueles livros pra se ter na estante, mostrar para os druguis, ler e reler de vez em quando. Juntamente com 1984  e Admirável Mundo Novo (eu acrescentaria Farenheit 451) formam a trindade distópica da literatura. Ao retratar uma Inglaterra futurística onde a violência das shaikas tomou proporções absurdas, o autor levanta questões sobre a violência urbana das gangues e o papel do Estado em sua propagação; a leviandade de pais permissivos; a eficácia do sistema carcerário; e até que ponto uma pessoa sem escolha é uma pessoa boa. E faz tudo isso regado há muita ultraviolência,  um linguajar próprio, e alguma doses de polêmica. O resultado não poderia ser outra coisa se não algo muito horrorshow.

O livro começa nos apresentado o personagem central, Alex, e seus amigos, adolescentes arruaceiros membros de uma gangue, vivendo a vida de forma caótica. Saem pelas ruas de uma Inglaterra futurística fazendo todo tipo de atrocidades: espancam pessoas, estupram mulheres, brigam com outras gangues, não estão nem aí para a escola e qualquer outra obrigação. Alex vai seguindo nesta vida até que em um desses embates passa do ponto, é preso e escolhido como cobaia num experimento que visa condicionar o ser humano a não cometer mais atos violentos.

A escrita de Anthony Burgees é fantástica. Narrado em primeira pessoa – sobre o ponto de vista de Alex – ele vai nos conduzindo de forma irônica e até um pouco esquisita pra dentro da mente de nosso protagonista. Digo esquisita por que Burgees criou um linguajar próprio para nossos personagens: o nadsat. Um misto de inglês (neste caso, português), russo e a fala cigana que causam uma estranheza num primeiro momento. E o autor queria causar estranhamento mesmo tanto que no final do livro há um glossário com o significado dos termos (posto a revelia do autor),  que vai de cada um usar. Ele intercala essas gírias com uma fala quase coloquial, no caso de Alex, demonstrando que nosso personagem não é alguém que mantém um comportamento violento fruto da ignorância, ao contrário, Alex é alguém inteligente, amante das artes e fascinado pelas músicas Ludwig Van Beethoven. Aqui o autor já começa a levantar a questão de quais os motivos desta violência. No livro, a causa disso parece ser o Zeitgeist...

Laranja Mecânica mostra um futuro distópico que mescla tecnologia com degradação social. E diferentemente dos livros livros citados anteriormente – 1984 e Admirável Mundo Novo – ele se parece muito com o nosso. Não há um governo tirano controlando tudo ou remédios nootrópicos que trazem a felicidade. O autor prefere se focar mais na mente dos personagens e suas forma de agirem do que na representação direta do governo. Esta tática implica em um paralelo direto com a nossa realidade. Até que ponto deixaremos a violência tomar conta de nossas vidas? E como o estado lida com isso? E ainda, ao mostrar os pais de Alex como indulgentes com seu filho deliquente, ele toca na ferida dos pais como responsáveis, em partes, pela situação de Alex...

São perguntas que o autor não responde diretamente mas deixa implícito o que pensa. Quando Alex é preso, ele acaba por se tornar alguém mais cruel do que já era. Há uma crítica forte ao sistema carcerário que não recupera ninguém, só piora. E quando ele sai do cárcere, vê que seus antigos e membros de outras gangues tornaram-se policiais. É o Estado combatendo a violência com mais violência. Mas, este mesmo Estado tem outra ferramenta para combater a violência: condicionamento...

Em algo que lembra os experimentos de Ivan Pavlov, Alex sofre uma espécie de lavagem cerebral e só o fato de pensar em ferir alguém ele passa mal. Algumas pessoas não concordam pois retira o poder de decisão do individuo e o autor levanta um questionamento filosófico: alguém bom, que o é por não ter escolhas, é alguém bom? E, se a resposta for não, importa? E, é justo fazer isso com um individuo? Mas, devemos nos preocupar com algo justo, humano para alguém que faz mal a humanidade? Questionamentos como este são bem atuais num Brasil que estuda aplicar castração química em estupradores e outras forma que, dependendo de quem observa, pode ser vista como punição, castigo merecido, solução dos problemas, desumanização do individuo, tortura e mais um monte de coisas. Qual é o correto? Existe algum que o seja? São perguntas muito apropriadas a serem feitas...   

O autor vai nos levando por esse caminho de questionamentos mostrando uma violência gigantesca. Que, apesar de todas as nuances que cercam a vida de nosso personagem, fica claro que ele é o que é, não só como fruto do seu entorno, mas também porque decidiu ser assim. E falar sobre isso sem mencionar a adaptação homônima feita pelo magistral Stanley Kubrick não dá – é impossível não imaginar o ator Malcolm McDowell quando se pensa no Alex. Pois, este filme, considerado um dos melhores já produzidos, recebeu fortes críticas pela violência. Inclusive, Kubrick, acusado por políticos e autoridades na Inglaterra de instigar a violência nos jovens, decidiu proibir a circulação da obra na terra da rainha. Sem contar que a obra que Kubrick adaptou não continha o último capitulo já que a versão que ele usou, a americana, não apresentava esta parte – decisão da editora, mais uma vez a revelia do autor, que achava que o final destoava do resto da obra. Então, há um final diferente para as duas obras que é fantástico para nós como espectadores...             

Ao final do livro, há uma situação em que determinado grupo tenta se aproveita de Alex com fins políticos. É interessante notar como o autor faz uma retrato nada adocicado da politicagem que, no livro, estão representando os próprios interesses. Foda-se o povo...

Laranja Mecânica é um livro que te faz pensar sobre como nos comportamos como sociedade e até que ponto estamos dispostos a deixar o governo ir para sanar nossos problemas (aqui no Brasil, os problemas que eles mesmos, os políticos criaram) e qual nossa parcela de culpa nisso tudo. Se você gostou do filme, não se faça de rogado e leia esta obra que é deveras horrorshow...

Obs.: eu iria explicar o significado do título, Laranja Mecânica mas achei por bem deixar que você descubra ao ler.

Obs.2: as palavras em itálico no primeiro parágrafo estão no idioma nadsat que são: Druguis (amigos), Shaikas (gangues), Ultraviolência (violência exacerbada) e Horrorshow (maravilhoso, demais, ótimo).


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Laranja Mecânica (A Clokwork Orange, Reino Unido,1962)
Páginas: 224
Autor:  Anthony Burgees
Editora: Aleph
Comprar: AMAZON
  

[CRÍTICA] filme, Blade Runner 2049


Dennis Villeneuve ousa em sua continuação de Blade Runner e nos deixa a seguinte pergunta: afinal, importa se somos humanos?
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Blade Runner não foi um sucesso imediato em sua época de lançamento. Pouca arrecadação e críticas em sua maioria negativas pareciam decretar que este seria mais um daqueles filmes que se esperavam muito mas que não mostrou para o que veio. Porém, no decorrer dos anos, a crítica passou a ver a película com outros olhos e paulatinamente, a obra do diretor Ridley Scott alcançou o patamar de clássico da ficção cientifica com a honra de ser um dos melhores do gênero (para muitos, o melhor).  Quando foi anunciada a continuação muitos ficaram receosos.  Pra que me mexer em algo que se consolidou? Apesar do diretor escalado para o projeto, Dennis Villeneuve, ter mostrado uma competência sólida em sua filmografia, a desconfiança ainda pairava. Porém, após a exibição, o que se viu foi uma obra que segue a cartilha das continuações de sucesso: mantém a essência e atmosfera da obra original mas toma novos rumos expandindo o  universo criando sua própria filosofia...

Blade Runner – 2049, narra a história onde a Tyrell Corporation – responsável pela criação dos androides, ou replicantes. Após problemas com as versões Nexus 8, quase fale, porém é comprada por Niander Walacce (Jared Leto), que expande e aumenta o tamanho da companhia desenvolvendo replicantes mais obedientes aos humanos. O Blade Runner K (Ryan Gosling), acaba descobrindo uma conspiração para manter um segredo, e parte em busca de Rick Deckard (Harrison Ford) que talvez tenha as respostas que ele busca. Não dá pra falar muito muito mais sobre o filme pra não estragar a surpresa de quem ainda não viu. Não que as reviravoltas sejam a essência deste filme, não são! Mas é sempre legal manter um certo desconhecimento do que irá acontecer num filme de investigação...

Dennis Villeneuve é um caso raro de diretor que apresenta uma filmografia relativamente extensa (nove filmes) e não errou a mão em nenhum. Seus filmes apresentam uma atmosfera pesada, um ar de perigo em cada esquina, de urgência (mas sem ser apressado) onde cada frame, cada cena pode ser significativo. Aqui ele mantém isso de uma forma mais robusta, mais opulenta...

Aproveitando os vários ganchos que a história original propiciou, Villeneuve puxa cada um deles mas não querendo ser uma cópia do filme de Scott. Ele subverte o sentido central da obra de 83 sabendo aproveitar todos os acertos do outro filme elevando-os um grau acima. E faz isso sem pressa nenhuma. As cenas são conduzidas pra levar o espectador a imergir na obra. Não apenas vê-la, mas senti-la. Faz isso com uma cinematografia cheia de cores e luzes piscando mas em mundo sujo, asfixiante. A paleta de cores evoca uma ideia noir que se completa com uma trilha sonora forte que sabe a hora certa de elevar o volume. A criação de mundo é toda espetacular. Você consegue sentir que aquele mundo seguiu adiante e mesmo assim, ou por conta disso, ainda apresenta uma beleza que parece nociva, quase erótica. Há um uso muito acurado de projeções visuais no longa e muitas delas, apesar de servirem seu propósito original – propaganda – tem muito a dizer sobre a trama e principalmente os personagens...

Falando em personagens, aqui os atores estão todos excelentes. Ryan Goslyn faz um replicante que se depara com  um mistério gigantesco que diz respeito ao mundo ao qual ele vive mas também é algo pessoal, íntimo que muda muito do que ele sabe. E ele consegue transmitir  toda dúvida e incerteza através do olhar, do jeito cansado; Harrison Ford mantém a classe de sempre. Quando ele aparece eu tive quase que um Uou. Harrison traz um Deckar envelhecido mas não inválido. A solidão – ou não – fizeram ele se cercar de cuidados e  medos e o ator transmite tudo isso  dentro de um estoicismo calculado; a lindíssima Anna de Armas dá um show de atuação. Ela faz..., bem, não vou falar pra não estragar a surpresa, mas tem um papel muito importante pra entender a ESSÊNCIA do filme. Há uma cena envolvendo de sexo com ela, K e outra replicante que me lembrou muito uma cena do filme Ela . Porém aqui, a cena é mais impactante. É quase uma viagem psicodélica que casa certinho com a premissa e atmosfera do filme; Jared Leto na pele de Niander Wallace, apesar da brevidade de suas cenas, faz um CEO extremamente inteligente  e perigoso – meio que apaga seu papel em Esquadrão Suicida – e você sente a ameaça exalando dele...

O roteiro do filme, além de acertar em não apressar as coisas, dá espaço para que todos os personagens apareçam na medida do necessário e quando preciso, como no caso de K, só é dito o necessário pra não diminuir a atmosfera de desconhecido. Mas tudo isso não seria nada se o diretor não tivesse ousado em mudar as perguntas do anterior mas sem cortar de todo o fio que as liga. Se no primeiro a pergunta que ficava era o que nos torna humanos, em Blade Runner 2049(adaptado do livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? , de Philip K Dick) a pergunta é: importa se somos humanos? Ou seja, transmuta de uma pergunta mais intimista e existencial para algo mais social. E esta pergunta vem num momento muito importante da história do homem...

No decorrer da história, o homo sapiens dobrou todas as outras formas de vida de acordo com suas necessidades e o fez/faz com a premissa de que somos a “raça” superior, a mais inteligente, mais apta. Isso é muito bem descrito no ótimo Spiens de Yuval Noah Harari. Entretanto, com o advento das tecnologias da informação e seu processo constante de ir além, já se avizinha no horizonte formas de existência que não estamos de todo preparados. Remédio nootrópicos, a fusão do homem com partes cibernéticas e a tão buscada inteligência artificial. Segundo o mesmo Harari em seu outro best seller, Homo Deus, e outros pesquisadores, esses eventos não demoraram mais que cinco, seis décadas pra acontecer. Como nos relacionaremos com esses seres que, em teoria, serão aquilo que o sapiens é hoje? Sem contar nas diversas barbáries que ocorreram no decorrer da história com base no principio da superioridade das raças: escravidão, genocídios, nazismo, dentro outros demônios do passado e do presente, se baseiam na ideia de superioridade de um grupo ante outro com ênfase na desumanização do individuo... 

Apesar de toda essa grandiosidade, Blade Runner 2049 foi mal de bilheteria. O diretor especula que possa ter sido pela trama que pouco foi divulgada – bem diferente do que ocorre com a maioria dos blockbusters. Alguns argumentam que o ritmo lento e o tamanho do filme atrapalharam. Independente dos motivos, o filme tem tudo para repetir os passos de seu irmão mais velho e se tornar um cult (claro, só o tempo dirá), haja vista que ele consegue manter a mística do primeiro filme sem parecer uma corruptela pra arrecadar dim-dim, acrescentando seus próprios méritos e acertos. É esperar pra ver...
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Blade Runner - 2049 ( EUA, 2017)

Roteiro: Hampton Fancher, Michael Green (baseado em personagens criados por Philip K. Dick)

Direção: Denis Villeneuve

Elenco: Ryan Gosling, Harrison Ford, Dave Bautista, Robin Wright, Mark Arnold, Vilma Szécsi,  Ana de Armas, Wood Harris, David Dastmalchian, Tómas Lemarquis, Edward James Olmos


Duração: 163 min.


[CRÍTICA] filme, Aniquilação


“Não está morto o que eternamente jaz inanimado, em estranhas realidades, até a morte pode morrer   “
(O Chamado de Cthulhu – H.P. Lovecraft)

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Antes de mais nada, vale ressaltar que este filme é passível de interpretaçãoes. Eu cheguei a algumas e decidi analisa-lo a luz daquilo que mais me chamou a atenção, Ok?

Alex Garland é um roteirista/diretor que no decorrer de seus filmes apresenta um olhar pessimista com relação ao futuro da humanidade. Extermínio e Sunshine – Alerta Solar, que ele “só” roteirizou, e Ex-Machina, que ele roteiriza e dirige, passam a ideia de alguém que não vê a humanidade como boa e que, no final das contas, apesenta uma espécie de instinto de destruição inato que sempre prevalecerá sobre nossos aspectos positivos. Em Aniquilação, seu mais novo longa, distribuído pela Netflix, ela volta a esta premissa mas de uma forma mais aguda, simbolicamente falando, numa produção que mete medo, te instiga a refletir sobre algumas coisas, é carregada com uma aura de estranheza e levanta algumas questões que talvez só saberemos às respostas em sua possível continuação.


Lena (Natalie Portman) uma bióloga e ex-militar se junta à uma expedição com outras quatro mulheres para desvendar os mistérios de uma região que foi acometida por um evento estranho – místico? Químico? Alienígena? os pesquisadores não sabem – todas as expedições anteriores fracassaram: ninguém voltou, exceto um, o marido de Lena, o sargento Kane (Oscar Isaac). Antes de descobrir do que se trata aquela anomalia no local, nomeada como Área X ou Brilho, pela luz que emite, Lena precisa descobrir uma forma de ajudar o marido que voltou da Área X diferente e corre grande risco de vida.

Bom, podemos começar a falar que Garland não se preocupa em ser muito didático. Há vários momentos onde uma explicação aparente não existe cabendo ao espectador desvendar por si o que aquilo significa. Há sim alguns momentos de diálogos expositivos mas nada que entregue demais, servem só pra mostrar um rumo a ser seguido e o final fica por conta de cada um (falaremos mais sobre depois...). Mas, olhando um pouco além da superfície, percebe-se que o autor deixou  muitas informações de forma indireta e elas tem muito à dizer...

A começar pela formação da equipe de mulheres que vão se aventurar na anomalia. Todas elas apresentam algum problema ou trauma que dialogam  diretamente com a ideia do diretor de autodestruição inata ao ser humano. A física Josie Radek (Tessa Thompson), que se automutila pra se sentir-se viva; a geóloga Cass Sheppard (Tuva Novotny) que enterrou a filha a pouco tempo e sente como se parte dela morrera também; a paramédica  Anya Thorensen (Gina Rodriguez) uma viciada em potencial; a líder da equipe, dr. Ventress (Jennifer Lason Leigh), psicóloga que logo de cara você percebe que há algo de muito estranho com ela e é explicado mais para frente o que é; e Lena que por escolhas do passado colocou seu casamento em risco...

Toda esta carga negativa autodestrutiva das personagens é bem representada logo no inicio do filme de forma simbólica quando Lena está dando uma aula sobre células cancerosas e explica o conceito de tumores, de como eles são uma espécie de autodestruição do próprio organismo. Há um diálogo entre Lena e a dr. Ventress em determinado momento que salienta isso quando a psicóloga diz:

"quase ninguém se suicida, mas todos se autodestroem. Nós bebemos, fumamos, traímos o marido..."  

E é sobre isso que o autor quer falar: nossa capacidade de autodestruição...

E o autor decide fazer isso de forma, digamos, diferente. Ele enfatiza os planos abertos – bem oposto ao eu vimos em Ex-Machina que prioriza as tomadas mais fechadas e intimistas -  colocando os personagens no centro da câmera com um espeço pouco preenchido em volta. Isso serve pra mostrar o local onde se encontra a anomalia dando uma ideia de natureza e ressurreição, de surgimento. A fotografia também vai por este caminho num tom meio esverdeado que remete logo ao natural. Mas este natural não é familiar, pelo contrário...

Dentro do Brilho, vemos formas de vida hibridas, impossíveis de ocorrer segundo a biologia atual – crocodilos com dentes de tubarão, veados com chifres floridos, flores cladisticamente distintas mas que provém da mesma planta..., e isso, além de ser visualmente belo em alguns momentos é aterrador em outros. Um deles principalmente. Há uma cena com as personagens em uma sala, com uma luz fraca, que surge uma dessas criaturas que te faz dar um pulo na cadeira de tão bizarro e medonho que era aquilo. Me lembrou imediatamente o conceito de Vale da Estranheza. Mas, apesar do tom instigante e do suspense permeando toda a obra, os momentos de susto pontuais não são constantes  - o que é bom pois quando surgem, são foda -  e talvez por conta disso, o autor decidiu por aplicar uma atmosfera meio gore em algumas cenas. Cito principalmente quando as expedicionárias encontram um vídeo da última expedição e o bicho se mexendo dentro do cara evoca um senso de bizarro e nojento.

O filme é contado em flashbacks já te contando que a exceção de Lena, todos morreram. E quando sabemos como e entendemos algumas coisas (pois não há resposta pra tudo) principalmente a nova natureza de Kane e Lena, aquela classificação de ficção científica fica meio em segundo plano. Me lembrou muito algumas histórias de Horror Cósmico de H. P. Lovecraft, principalmente os contos A Cor Que Caiu do Céu e O Chamado de Chullu. A trilha sonora com instrumentos que dão a impressão de algo fora desta realidade reforçam esta impressão do desconhecido, de uma força ou forma de vida que nem liga pra nós humanos e por isso, perigosa. Sem contar que a nova natureza dos personagens casa perfeitamente com a ideia de autodestruição que foi evocada no filme. É uma representação bem forte dos humanos que vivem a modificar tudo a sua volta, inclusive a forma de vida da própria espécie – é só lembrar dos cristãos catequizando os índios... – não se importando muito com o que está se perdendo neste processo, principalmente no que diz respeito a fauna e flora...  

A cena final do filme é bem surreal. Um excesso de cores numa sequencia bem psicodélica que me lembrou o final de 2001, Uma Odisséia no Espaço (pessoal, não estou comparando, ok?). E este final apesar de dar uma algumas respostas não explica tudo: o que era aquele Brilho? Porque veio aqui? Será que realmente acabou? O que são agora Lena e Kane? Eu cheguei a uma conclusão (não sobre tudo, vale ressaltar) bem subjetiva e a cena, lá no inicio com Lena e Kane dando as mãos com um copo de água na frente impossibilitando saber qual mão pertence a quem, que me pegou logo de cara ficou mais forte ainda depois da cena final deles dois se abraçando...

Apesar de deixar o final em aberto, afinal é baseado na trilogia do autor Jeff Vandermeer, Aniquilação fornece algumas respostas mas não todas. Pela natureza surreal do filme e seu ritmo as vezes lento, pode não agradar à todos. Ainda assim, é um filme que vai consolidado Alex Garland como um dos novos nomes da ficção cientifica, sempre com a mensagem de que os seres humanos são, em si, autodestrutivos. ...
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Aniquilação (Annihilation, EUA, 2017)
Roteiro: Alex Garland 
Direção: Alex Garland

Elenco: Natalie Portman, Oscar Isaac, Jennifer Jason Leigh, Gina Rodriguez, Tessa Thompson, Tuva Novotny


Duração: 115 min.

[RESENHA] 1984 I "Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força..."


Nota: ★★★★★

Caso não tivesse se tornado um escritor de ficção tão aclamado mundialmente, George Orwell, provavelmente, teria gravado seu nome na história. Foi um cronista e resenhista muito famoso e polêmico no seu tempo além de ter participado da Guerra Civil Espanhola – relato este que se tornou livro, “Lutando na Espenha” (Homage to Catalonia, 1938) – onde o autor além de fazer um relato sobre sua passagem pela guerra, faz uma crítica ferrenha ao regime comunista soviético. Porém, como muitos espíritos dotados de talento e inquietação, Orwell alçou voos maiores e entregou dois livros que são duas grandes alegorias e metáforas sobre as fraquezas humanas e o estado controlador, tendo como foco inspirador a União Soviética de Joseph Stalin – mas não restringido somente a isto: “Revolução dos Bichos” (Animal Farm, 1945) e “1984”. Aqui, trataremos do segundo que acabou por ser o último livro do autor que morreu no ano seguinte a publicação da obra.

1984 é o grande clássico das distopias. O mundo, após sucessivas guerras, acabou dividido em três grandes blocos: Eurásia, Lestásia e Oceania que estão sempre em guerra, mudando apenas quem ataca quem e qual bloco faz aliança com qual. O livro foca sua narrativa no personagem Winston Smith, morador de Londres (cidade que pertence ao bloco da Oceania) funcionário dO Partido (que controla tudo)que começa a questionar a realidade na qual está vivendo pois nota que o que vê, ao que tudo indica, não está de acordo com o que o lhe contam. Falando assim, parece só mais uma distopia que nos últimos tempos lotam as livrarias com suas narrativas ficcionais e que são esquecidas logo após o ponto final. Porém, 1984 é uma imersão em um mundo controlado por um governo onisciente que toca profundamente a psique de quem se aventura por essas páginas.

LEIA TAMBÉM: Alan Moore e sua visão do governo opressor e a apatia do povo

O livro é divido em três partes: a primeira trata de explicar o mundo onde Winston está inserido; a segunda foca nas inquietações do personagem; a terceira narra o desfecho dessa história. Navegando por essas três partes, Orwell cria um universo com um forte paralelo com a União Soviética de Stálin. O Partido que controla tudo está presente em toda seara de relações humanas. Seu comandante é o onipresente e onisciente “Big Brother” que observa tudo através das Teletelas - espécie de televisões que além de transmitirem conteúdo servem para espiar a vida das pessoas. Mas, o monitoramento não fica restrito a isso. A vida de cada individuo é observada de perto pelos membros do partido e até um sorriso em um momento inoportuno pode ser indicio de subversão.


E não é só pelo medo que todos são controlados. Com sua estrutura perene, o estado cria novas ferramentas para manter-se no controle. Desde novas versões pra fatos do passado até um novo idioma. Indo além e incutindo nas pessoas a ideia de que verdades excludentes podem coexistir desde que de acordo com os anseios e vontade do Partido. É o tal do Duplipensamento: 2+2=5... toda essa maquinaria dividida entre os vários ministérios do governo, não levam em conta o bem estar do população e sim a conservação da estrutura do Partido...

No momento em que escrevo esta resenha, estou lendo o livro Vozes de Tchernóbil (The Chernobyl Prayer, 1997), de Svetlana Alexijevich, Nobel de Literatura. Um livro fantástico sobre a catástrofe nas usinas nucleares na Ucrânia, e em meio a tantos relatos, um que se sobressai é a forma como o governo soviético controla as pessoas. Fica claro, através dos depoimentos, que o Estado anulou o individuo sobrando um ser que vive em prol dEle. Estado este que usa de suas artimanhas e hediondez para manter-se vivo. Orwell conseguiu transmitir em suas páginas essa mesma figura claustrofóbica e temível na figura do Big Brother. Entretanto, como o autor já disse em entrevistas, seu livro não é apenas uma critica ao Stalinismo mas a toda forma de totalitarismo e suas práticas.


Hoje, sempre consta na ordem do dia de algum mandatário, ou aspirante a tal, a figura de algo ou alguém que pode levar a derrocada  de nossa sociedade: os imigrantes, as mulheres, os gays, os comunas, os capitalistas.., são muitos os “monstros” à espreita só no aguardando da oportunidade para dar o bote. Fazem isso com o intuito de causar medo e repulsa e uma vez que compramos a ideia eles passam a ter o poder de fazerem o que quiserem. E, vejam, isso não é exclusivo de governos de esquerda. Muitos governos de viés liberais também tem seus monstros a serem combatidos. É só assistir a qualquer jornal que será fácil enxergar isto...

Em 1984, esse grande vilão é Emmanuel Goldstein. Um traidor da pátria com sua eterna tentativa de revolução, porém, o que fica subentendido é que Goldstein nem exista sendo somente um artificio  do governo para justificar suas posições questionáveis e sua tirania contra o povo.


O final do livro é de um pessimismo acachapante. Ali, no mistério do Amor (ironicamente chamado assim pois neste ministério é que ocorrem as torturas), vemos como o Estado usa de todo seu aparato  para obrigar as pessoas a dobrarem-se a sua vontade. Não há escapatória. Na época, muitos criticaram Orwell por essa visão desesperada e pessimista. O que eles esquecem é  do momento histórico no qual o livro fora concebido:

A Segunda Guerra Mundial recém havia terminado; o mundo ainda respirava o medo radiônico de Hiroshima e Nagasaki; a ONU havia aprovado a divisão da Palestina em dois estados contra a vontade do povo Árabe; Stalin continuava à frente do vasto império soviético; e tinha se consolidado os dois blocos da Guerra Fria. Num cenário como este, onde o fim do mundo radiativo se apresentava com uma ideia nada absurda e os governos demonstravam sua força para além da misericórdia humana, não é de espantar que Orwell capitou esse negativismo e transcreveu isso em suas páginas. Eu, da minha parte, achei o final condizente com tudo que fora apresentado na obra.

1984, antes de ser um estudo do passado é um alerta sobre o futuro. Sobre como nós, como sociedade, como povo e como nação nos comportamos ante as pessoas, instituições e corporações que tentam nos controlar através do medo, do desejo, da necessidade, do messianismo. E, como bem sabia o Big Brother: “quem controla o passado controla o futuro”. 


Pra fechar este corolário, em uma época em que o medo pode nos levar a acreditar em qualquer governante que apresente uma solução imbecil, cito uma frase de uma Graphic Novel que gosto muito, V de Vingança: 
"Igualdade, justiça e liberdade são mais que palavras, são perspectivas"  

Boa Leitura.

1984 ( 1984, 1949)
Páginas: 416
Autor:  George Orwell
Editora: Companhia das Letras
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