[RESENHA] A História Sem Fim, de Michael Ende



Nota: ★★

SINOPSE:  A História Sem Fim é a mágica aventura de um garoto solitário que passa através das páginas de um livro para um reino muito particular, o reino de Fantasia. Nesta terra, numa busca cheia de perigos, Bastian descobre a verdadeira medida de sua coragem e aprende que ele também tem a capacidade de amar. O texto impresso em suas cores (verde e vinho), as belas ilustrações das aberturas dos capítulos completam o clima de encantamento que envolve o leitor.

Caçando outro dia na Net livros de fantasia (numa ânsia de ocupar o lugar vago deixado por “Senhor dos Anéis” e “A Torre Negra”) descobri que o filme História Sem Fim, aquele que encantou muita gente na Sessão da Tarde (a galera da minha idade irá lembrar do dragão Fuckur, Atreiú, Imperatriz Criança e o malévolo Nada) tinha uma origem literária. Fiquei ansioso para ler. E confesso que cada linha, cada palavra foi uma experiência e tanto.

RESENHANDO contém spoiler: Bastian Baltasar Bux é um garoto sem amigos, que acredita que seu pai não dá a mínima pra ele. Um dia, após sofrer bullyng, busca refúgio em uma livraria. Estando ali, sente um magnetismo gravitacional por um certo livro. Aproveita que o dono do estabelecimento (carrancudo, será?) se retirou alguns segundos e furta o livro. Quando Bastian começa a ler, sua vida muda de um jeito que ele jamais imaginaria.

 O livro intitulado História Sem Fim conta a história de um Reino, Fantasia. Alguma coisa aconteceu com o local que passa a ser destruído pelo Nada. Todos os seres fantásticos que habitam Fantasia se dirigem até a Torre de Marfim onde reside a Imperatriz
Criança (a chefa do local) pra descobrir o que está acontecendo mas a Imperatriz Criança está doente. Lá descobrem que um garoto chamado Atreiú pode salvar Fantasia do Nada e que a medida que o Nada vai crescendo a Imperatriz Criança vai ficando mais fraca.

A descrição de Fantasia é perfeita. Uma riqueza de detalhes pra Tolkiano nenhum botar defeito. Paisagens esplêndidas e originalmente construídas. E é nesse lugar lindo e fantástico que Atreiú vai seguir sua jornada pra salvar Fantasia. Mas não sozinho. Em uma certa passagem do livro, quando alguém grita Bastian tem a impressão de ter escutado o grito. Coisas neste sentido vão acontecendo. Até que ele é transportado pra dentro do livro. Mano, acho que esse é sonho de muita gente: fazer parte de uma leitura. Vai dizer que nunca lhe apeteceu participar de uma obra que estais a ler. De lutar junto com o mocinho, derrotar o vilão, beijar a mocinha... , isso acontece com Bastian.

O livro, do alemão Michael Ende, foi publicado na década de 70. Quando comecei a lê-lo tinha em mente que seria uma leitura simples pois tinha acabado de ler um livro tenso – Inferno, o mundo em Guerra e queria uma leitura bem suave. Ledo engano. O livro é cheio de reflexões filosóficas que dificilmente uma criança entenderia (digo isso porque achava que a obra era dedicada ao público infantil). Por inúmeras vezes o autor nos tira do mundo mágico de Fantasia e expõe problemas/situações que nós, reles mortais compartilhamos.

Numa conversa acho que de Atreiú com o dragão Fuckur, não lembro ao certo, Atreiú pergunta ao dragão qual o limite de Fantasia. O dragão responde: “Não existe limite para Fantasia”

Em uma passagem onde um ser imortal conversa com Bastian quando ele pede ajuda para Salvar Fantasia: “Somos velhas, filho, muito velhas. Vivemos o bastante já. Vimos demais. Quando se sabe o tanto que nós sabemos, nada importa. As coisas apenas se repetem. Dia e noite, verão e inverno. O mundo é vazio e sem sentido. Tudo se finda, bom e mal, bonito e feio. Tudo é vazio. Nada é real. Nada importa”.

Outro ponto de reflexão bem bacana é quando Bastian percebe que pode ajudar a resolver o problema de fantasia: “... naquele momento, Bastian fez uma importante descoberta: podemos estar convencidos durante muito tempo – anos talvez – de que queremos alguma coisa, se soubermos que nosso desejo é irrealizável. Porém, se de súbito nos vemos diante da possibilidade de este desejo ideal se transformar em realidade, passamos a desejar apenas uma coisa: nunca tê-lo desejado...”

Quando Bastian está envolvido na salvação de Fantasia por uma motivo X (quem quiser saber que  leia o livro) ele pode realizar vários desejos, mas porém suas lembranças se perdem a cada novo desejo realizado. Creio que o autor quis dizer que as vezes na ânsia que temos de mudar alguma nuance de nossas vidas, acabamos perdendo um pouco de nossa essência, nosso Eu. Isso pode ser bom, afinal, é sempre bom expressar novas ideias, novos comportamentos, mas isso deve ser feito com parcimônia pois, parafraseando Clarice Lispector: “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que segura nosso edifício inteiro”.  Por isso quando quiser alguma coisa, pense bastante sobre o quanto isso, o quanto essa mudança pode lhe afetar.

O crescimento de Baltasar na narrativa é gradual e ele acaba percebendo que no meio de toda aquela magia, por ter esquecido quem era, se tornou um cara diametralmente oposto aquilo que ele sempre foi se tornando algo que ele sempre abominou, tipo os caras que lhe faziam bullyng: “...enquanto contemplava a imagem colocada na neve, Bastian sentiu muita saudade daquele homem que não conhecia e que fora um dia. Era um sentimento que vinha de muito longe, como uma onda do mar que ao longe parece inofensiva, mas que, à medida que vai se aproximando se transforma numa parede de água da altura de uma casa, que arrasta tudo consigo. Bastian quase se afogou nessa onda de saudade...”

Outro ponto bacana da narrativa é que em muitas passagens o autor, enquanto contava uma determinada história paralela a principal à terminava da seguinte forma: “Graogaman já havia feito outras coisas. Mas essa é uma outra história”

Este sem dúvidas é um dos melhores livros que li – não à toa a resenha ficou enorme e olha que cortei um monte de coisa - não somente pela história, mas também pelas mensagens, pela ideia atrás da história que me fez ficar algum tempo refletindo sobre muita coisa. Livro recomendadíssimo!!!

OBS 1: o autor do livro não gostou nenhum pouco da adaptação da obra. Em baixo segue um vídeo dele comentando o fato.



OBS 2: algumas passagens do livro me levam a crer que Michael Ende pertencia a alguma ordem mística e era alguém bem graduado nas “Artes”. Principalmente a lei de Thelema.  Mas essa é uma outra história.

OBS 3: filmaram uma continuação: História Sem Fim 2 e 3 e ambos são lamentavelmente ruins.

Boa leitura

A História Sem Fim (Die Unendliche Geschichte, 1979)
Páginas: 392
Autor: Michael Ende
Editora: Martins Fontes 
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