[RESENHA] O Colecionador, de John Fowles


Quando a senhora minha esposa mostrou-me o livro que havia comprado, pensei que se tratava de algo como Sabrina por conta da capa que lembrava muito este tipo de livro de banca. Mas, minha senhora (SEMPRE ELA), me explicou que não! Que na verdade, tratava-se de um suspense psicológico de um cara que ama uma mulher e acaba sequestrando-a. Interessei-me e fagocitei o livro. Ainda que em determinado momento o livro perca um pouco de seu ritmo, a história de um sujeito desajustado que orquestra um plano maluco pra conquistar uma mulher é deverás interessante, cheio de surpresas e angustiante...

O romance narra à história de Frederick Clegg, um funcionário público que coleciona borboletas e, subitamente, se torna dono de uma fortuna. Ele então passa a ter uma ambição: sequestrar a bela Miranda, seu amor platônico...

Quando você chega ao tão esperado FIM deste livro, o sentimento que prevalece é o de tristeza mesclado a uma sensação de solidão e abandono. O trabalho realizado pela escrita de Fowles em seu romance de estreia é arrebatador....

Narrado em primeira pessoa – primeiro pela ótica de Frederick, depois pela de Miranda – o livro consegue trazer um clima de imersão que este tipo de narrativa precisa para te manter ávido, linha após linha, para saber o desenrolar da história. E, sendo em primeira pessoa, é possível se aproximar dos pensamentos dos personagens e ter um retrato real do que se passa em suas mentes. E há muita coisa aí...

Frederick, logo no inicio você já desconfia que não “bate” muito bem da cabeça. Obcecado por borboletas mas que não consegue manter uma relação amigável com nenhum ser humano. É um ser isolado que se sente menosprezado por seus pares e que também os menospreza. Menos uma pessoa: Miranda. Esta personalidade claudicante e insegura acredita ter a chave para que ela o ame, porém, é um jeito totalmente maluco que ilustra o tipo de personalidade de Frederick...

Já Miranda, uma jovem de espirito livre, é uma amante das artes e que vê nesta seara a chance de galgar seu lugar ao sol, vive de amores aqui e acolá, e quando vê sua vida reduzida as paredes de seu cárcere, percebe que terá de usar de toda sua astúcia para sair desta encrenca...

Ler as páginas de O Colecionador é adentrar um mundo onde o normal não é visto pela mesma ótica que pessoas comuns. Não que não tenhamos nossos pensamentos malucos ou inexpressáveis, porém, Frederick é um sujeito ímpar. Suas escolhas são pautadas em um raciocínio que levam a conclusões absurdas mas que na mente dele (e graças a imersão da escrita de Fowles, da nossa também) tem "lá" sua lógica...

Sua paixão por borboletas é um reflexo do que o mesmo acaba fazendo com Miranda: amante desses insetos, é impossível para ele simplesmente observá-los em seu esplendor livre na natureza. Ele precisa delas só pra ele para absorver e observar toda a beleza intrínseca a elas. Mesmo que pra isso precise aprisiona-las ou mata-las...

Livros assim, que levam as mentes humanas ao limite da loucura e do absurdo, são um deleite para qualquer amante das letras e que procuram nesse oceano de livros aquele que consiga nos tirar do conforto habitual e nos obriga a olhar para as pessoas que nos cercam com um certo receio por imaginar que por mais comuns que possam parecer, são capazes das maiores insanidades que a mente pode gerar. Mesmo apresentando-se plácido e belo como uma borboleta...

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O Colecionador ( The Colector, Inglaterra, 1963)
Páginas: 257
Autor:  John Fowles
Editora: Record
Comprar: AMAZON

[RESENHA] Objetos Cortantes, de Gillian Flynn



Faz mais de um mês que li este livro e fiquei enrolando pra fazer esta resenha. Porquê? Bem, não sei ao certo! É um livro de suspense, onde há um serial killer à ser descoberto e este tipo de livro, a despeito do sucesso que muitos alcançam, não é tão simples de ser realizado. Principalmente quando o ponto forte do livro se concentra em saber a identidade do assassino, que é o caso em questão. Muitos são os livros que seguem esta premissa ou algo parecido e que conseguiram alcançar seu lugar ao sol. Cito aqui O Aliciador, de Donato Carrisi e O Silêncio dos Inocentes, de Thomas Harris, como exemplos de livros de suspense excepcionais. Apesar de ter gostado da escrita de Gillin Flynn (autora de Garota Exemplar), o livro, pra mim, perdeu um pouco da sua “força” porque lá pela metade do livro “descobri” quem era o assassino e isso atrapalhou em certo ponto minha experiência...

O livro narra a história da jornalista Camille Preaker, que trabalha em um jornal de médio porte de Chicago. As coisas ficam complicadas para ela quando seu editor chefe pede (ordena) que ela vá para sua cidade natal, Wind Gap, cobrir  um caso de desaparecimentos de meninas que trará certa visibilidade ao jornal. Ao voltar para a cidade que pretendia jamais retornar, Camille acaba se deparando com fantasmas do passado e um caso que pode envolver um serial killer enquanto seus problemas pessoais vão ganhando força... 

A escrita da autora é bem ágil. De forma simples e clara, ela consegue conduzir o suspense numa espiral crescente que vai te impulsionando a seguir adiante num frenesi alucinante. A relação entre Camille e sua família é outro ponto interessante. Sua mãe, Adora, controladora ao extremo, faz questão de tratar o marido, Allan, padrasto de Camille como um acessório assim como faz com a filha deles, a meia irmã de Camille, Ama. E, a relação de Camille com sua mãe é tensa. Há sempre uma atmosfera de tensão entre elas que ocasionalmente explode mas que, movidas por um resquício de respeito fraterno, elas tentam, cada qual a seu modo, manter uma certa educação. O que não ocorre na relação entre Camille e Amma...

Tratada como uma princesa em casa, Amma é o verdadeiro terror fora dos portões. Apesar de jovem, 14 anos, seu corpo já desenvolveu e ela faz uso disso como forma de manipulação e intimidação. É a personagem mais interessante do livro. Mais até que a protagonista que, mesmo tento seus problemas pessoais (se autoflagela), não consegue ser muito interessante...

Outro ponto forte do livro é a forma como a autora retrata a atmosfera dos habitantes de Wind Gap. Sendo uma cidade pequena, a autora consegue transpor para as páginas toda uma ideia de conflitos e tensões mal resolvidos travestidos de convivência pacifica e harmônica. É como olhar para uma paisagem e ver que tem algo faltando mas não saber ao certo o que é... 

Apesar de conter uma história bacana e interessante o livro perdeu seu efeito sobre mim quando pouco antes da metade já sabia quem era o assassino. Mesmo tendo um plot twist no final que quase me fez morder a língua, o livro não conseguiu me cativar de todo. Acho que fui com a expectativa lá em cima por conta de Garota exemplar.

Uma curiosidade é que este livro já havia sido publicado no Brasil com o nome de Na Própria Carne, pela editora Rocco, e que também irá virar uma série pela HBO estrelada por Amy Adams. Esperar pra ver...


   
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Objetos Cortantes ( Sharp Objects, EUA, 2006)
Páginas: 254
Autor:  Gillian Flynn
Editora: Intrínseca
Comprar: AMAZON

Associação Livre [Parte I] - relatos de uma mente inquieta.



O mundo é um lugar meio estranho quando a gente se sente meio perdido. As coisas parecem que não se encaixam e tudo que fazemos resulta em  nada que aumentam ainda mais a sensação de vazio e de que estamos sozinhos neste Pálido Ponto Azul. Buscamos algum alento numa projeção futura ou ainda num conforto do passado. Entretanto, nossa mente confusamente vazia repleta e de informações não é um lugar muito confiável e aquilo que poderia ser belo num futuro, acaba se tornando um pesadelo e o que foi mágico no passado nos parece mais um abismo dantesco.  Vamos vivendo assim, um dia após o outro esperando que um cubo mágico caia nas nossas mãos com a fórmula  exata da felicidade e a tão sonhada solução para os nossos problemas. Enquanto isso não acontece, seguimos envelhecendo dez anos ou mais num único mês.

Neste quadro, é difícil olhar e ver a felicidade alheia sem sentir um pouco de inveja e raiva. Porque não Eu? Por que as coisas boas acabam caindo sempre do outro lado da cerca? Fizemos algo errado pra Deus pra ele não ouvir a nossa prece?  Será que Ele (ele?) existe?

Dias desses numa conversa despretensiosa, ouvi de alguém muito especial e caro pra mim que a mente prega peças e mesmo sabendo que determinado pensamento é errado, é difícil explicar isso pra mente. E olhando para os outros refletidos nos meus olhos, percebo que isso é a mais pura verdade. Quantas vezes não temos todas as ferramentas da felicidade ao alcance das mãos, mas não nos achamos dignos de tamanha dádiva e insistimos em sentir aquela tristeza que devora ou aquela apreensão que paralisa?

Bem, acho que no fundo, todo mundo sente um pouco disso..., às vezes! Somos tão estranhos que deixamos escapar oportunidades únicas  de felicidade e o pior, sabemos disso e não fazemos nada. Olhamos para o lado e vemos um mundo de coisas feias: fome, injustiças e qualquer outra ignomínia, e ainda assim, deixamos escorrer por entre nossos dedos as coisas boas que vão nos acontecendo. E não me refiro àquelas coisas boas de porte grandioso, não! Essas, sempre percebemos. Me refiro aquilo de bom que acontece a cada minuto, a cada quarto de hora e não observamos por uma ótica tão bela: conversas descontraídas, um abraço carinhoso, uma conversa amiga, um bom filme... São coisas pequenas, é verdade, mas são elas, VEJA BEM, são elas que fazem todo o milagre  chamado vida ser tão belo.

Sim, eu sei que tem momentos que observar algo belo num mundo – real ou mental – obscuro, é difícil. Mas, assim, é tentando ver um pouquinho desta beleza a cada dia que nos transformamos. E essa é a melhor forma de transformar o mundo. Por isso, escute o que já foi dito e, Tente Outra Vez...

Paz e Luz pra você aí do outro lado... =)

[RESENHA] O Poder do Hábito, de Charles Duhigg - por que fazemos o que fazemos?


E ai pessoas, tdo certo?! 

No inicio do ano fiz um compromisso de procurar ler mais livros que de alguma forma me proporcionassem  algum ganho além do intelectual (físico, emocional ou espiritual). Partindo dessa linha de raciocínio iniciei a leitura do livro “O Poder do Hábito” e tenho que dizer que comecei muito bem, pois o livro é daqueles que amplia a mente de quem lê, mostrando como o hábito é um elemento importante na vida de cada um.

Não sei você que ta lendo essa resenha, mas eu associava a palavra hábito aquelas manias chatas ou algo que fazíamos todos os dias por já estarmos acostumados e o livro vem exatamente quebrando essa teoria e mostrando como os hábitos são peças essenciais na vida de cada um.

O autor escreve de uma forma simples e apresenta  durante todo o livro exemplos de pessoas que mudaram alguns hábitos simples  e conseguiram  mudanças incríveis na vida, ele mostra que as vezes um único hábito que para gente não parece nada, pode mudar todo um sistema, tornando um atleta em um medalhista olímpico ou modificar os rumos de uma empresa.

O texto é conduzido pelo autor com maestria fazendo com que se consiga entender toda a teoria através dos exemplos apresentados e que qualquer um (qualquer um mesmo) pode mudar sua vida através da mudança de pequenos hábitos.

É um livro incrível, mas preciso avisar, se você é o tipo de pessoa que procura livros nesse estilo que tenham formulas prontas ou um plano de trinta dias pra mudar seus hábitos sinto te desapontar mas vai acabar frustrado. O autor não apresenta nenhuma formula magica, como disse anteriormente, ele se baseia em ensinar através do exemplo. Se tiver um pouco de paciência vai conseguir extrair todo ensinamento que ele propõe e te garanto que vai abrir sua mente de uma forma que vai perceber que os hábitos regem sua vida mais do que percebe.

É uma leitura que vale a pena, não é cansativa e as historias, mesmo sendo contadas de forma analíticas, te prendem e fazem entender de forma clara a mensagem. Super recomendo! Eu mesmo já consegui mudar dois hábitos durante a leitura. E esse é só o começo...
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O Poder do Hábito ( The Power of Habit, EUA, 2012)
Páginas: 408
Autor:  Charles Duhigg
Editora: Objetiva
Comprar: AMAZON

Filme "Extraordinário" é uma manual prático de como emocionar o espectador...


A única razão de eu não ser comum é que ninguém além de mim me olha dessa forma
(August Pullman)
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Um dos grandes desafios de adaptar uma obra literária para as telonas é conseguir captar a essência da obra original e reproduzi-lá em outra mídia. São muitos os casos de livros de sucesso que solaparam violentamente quando foram para às telonas. Quando o livro em questão tem seu ponto forte em emocionar o leitor, fazer emergir esta mesma emoção no telespectador, sem se tornar uma coisa pedinte e melosa, é mais difícil ainda. Graças ao lado luminoso da Força, não é o caso da obra em questão, pois o diretor Stephen Chbosky conseguiu fazer algo Extraordinário (hahah, perdoem-me, não deu pra segurar o trocadilho...)

Adaptado do livro homônimo de 2013 da autora R.J. Palácio (resenha AQUI), Extraordinário conta a história de Ausgust Pullman, um garoto que nasceu com problemas genéticos graves o que determinou que ele apresentasse uma aparência diferente. Educado por sua mãe em casa, Auggie foi meio que criado dentro de uma redoma de amor e proteção dos males externos por sua família. Porém, seus dias de tranquilidade são abalados quando seus pais decidem matricula-lo em uma escola regular para cursar a quinta série...

O filme é dirigido por Stephen Chbosky. Ele já dirigiu outra adaptação muito carinhosa e querida pelos fans, As Vantagens de Ser Invisível. Aqui, ele soube mesclar o emocional com humor de forma precisa levantando questões relevantes para nossa convivência como ser social: o diferente é ruim?  por quais motivos vale à pena lutar? O quanto deixamos de enxergar quando nos focamos demais em  um ponto só? Crianças são sempre inocentes? É tão difícil assim ser gentil? Será que minha vida é realmente tão pior que a sua? São perguntas que vão sendo feitas no decorrer da trama e aparecem sempre nos momentos certos de cada cena. Muitas delas mexem com nossos sentimentos nos fazendo reavaliar muitas coisas sobre os outros e principalmente, sobre nós mesmos. Mas o autor sabe dosar o apelo emocional do filme com cenas engraçadas o que suaviza a narrativa. Li o livro e tinha receio que fizessem um negócio sentimentalóide com o objetivo de trazer emoções de forma gratuita. Não foi o caso. E tudo isso funciona, também, pela escalação do elenco...

Olwen Wilson faz o pai de Auggie, um cara engraçado que sabe que o mundo lá fora tem tudo pra dizimar o filho mas tenta levar tudo com muito bom humor; Isabel Pullman ( Julia Roberts)  a mãe de Auggie, que basicamente parou sua vida pra “viver” a do filho. Abnegada, não mede esforços pra tornar o mundo de Auggie melhor o que acaba deixando-á míope para outra coisas como a filha mais velha, Via Pullman (Izabel Vidovic), que aprendeu a viver à sombra do irmão de forma até compreensiva, Porém, como qualquer um de nós precisa de atenção e sente que é deixada de lado...

A vida na escola não é fácil para Auggie. Acostumado com os olhares assustados das pessoas, ele não está preparado para uma das faces abstrusas da psiquê humana: bulliyng. Apesar dos cuidados que o diretor da escola toma, é complicado controlar crianças quando estas decidem serem más e há um deles,  que é particularmente terrível. Mas o autor faz uma pergunta sobre o porque deste garoto ser ruim e a resposta pode estar externa à ele: há uma cena com os pais dele conversando com o diretor mostrando o quanto podemos incutir em nossas crianças comportamentos negativos e execráveis pautado num manto de que temos o direito para tal...

E, claro, um bom filme com crianças no elenco não pode faltar amizade. Will (Noah Jupe) acaba se aproximando de Auggie a pedido do diretor mas acaba realmente gostando dele. Mas, nem todos os outros alunos gostam do novo aluno e ir contra o comportamento dos outros à sua volta requer muita presença de espirito e foco naquilo que ser quer. Por isso, em uma determinada cena da festa de Halloween, Will faz algo que acho "compreensível" e evidencia o quanto às vezes, trabalhamos para manter perto pessoas ou algo que nem queremos de fato. Fazemos somente para pertencer, pra não ser o diferente...

Reparem que não falei muito de Auggie. Pois bem, é de proposito. Se fosse falar aqui sobre ele, este texto ficaria do tamanho de uma monografia tão amplo os ensinamentos que este garotinho nos traz. Vivido de forma ótima por Jacob Tremblay, Auggie sabe que é diferente mas não quer nada melhor nem pior que os outros: só quer ser comum. E o desenrolar da sua vida com aprendizados e percas é de encher os olhos de tão emocionante. Há uma cena no final do filme, num acampamento de verão em que Auggie e Will tem um determinado problema mas que graças a alguns fatores (pessoas?) que eles não imaginavam, conseguem se safar que é phoda. O diretor conseguiu transmitir tudo o que aquilo representou para Auggie sem dizer nada. Só mostrou. Foi foda pá caráleo (fiz um esforço “daqueles” pra não chorar... =) e aquilo toca a gente de forma tão profunda e me lembra que em alguns momentos, gestos tão simples podem significar uma vida inteira...

Belo, engraçado, emocionante e cheio de aprendizagens, Extraordinário faz jus ao material fonte entregando um filme bonito que deve ser apreciado por todos aqueles que tencionam tornar-se algo melhor do que são agora. São lições pra se levar pra vida toda pois como disse o diretor Buzanfa: “se forem apenas um pouco mais gentis que o necessário, alguém, em algum lugar, algum dia, poderá reconhecer em vocês, em cada um de vocês, a face de Deus...”  


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Extraordinário (Wonder, EUA 2017)
Roteiro: Jack Thorne, Steve Conrad, Stephen Chbosky (baseado em romance de R.J. Palacio)
Direção: Stephen Chbosky
Elenco: Jacob Tremblay, Julia Roberts, Owen Wilson, Izabela Vidovic, Danielle Rose Russel, Noah Jupe, Millie Davis, Bryce Gheisar, Mandy Patinkin, Daveed Diggs, Nadji Jeter, Ali Liebert, Elle McKinnon, James Hughes, Ty Consiglio, Crystal Lowe, Kyle Harrison Breitkopf, Sonia Braga 
Duração: 113 min.

[RESENHA] A Casa Negra, de Stephen King e Peter Straub

“Há outros mundos, pistoleiro, e outros demônios. Essas águas são profundas. Fique atento aos portais. Fique atento às rosas e aos portais ausentes.”
(O Pistoleiro, A Torre Negra I)
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Assim como faria com Danny Torrence de O Iluminado, Stephen King, desta vez repetindo a parceria com Peter Straub, conta a história adulta de um menino que aprendemos a adorar a admirar. Se, no primeiro caso, ouve uma permanência de tom nas histórias, aqui os autores apostam mais no lado sombrio. Não que não haja o tom fantasioso presente nO Talisma, há sim. Entretanto, a história de Jack Chambers, 20 anos após sua odisseia pelos Territórios, é pautada por um atmosfera sombria, flertando em alguns momentos com o gore, trazendo para as páginas uma história da parte sombria que pode existir nas pessoas; de como o mal não modifica a natureza benevolente do individuo, ele apenas repousa em seus iguais; é um livro que incomoda o psicológico mas que crê na ideia que as coisas possam dar certo; e ainda temos uma incursão no universo da saga A Torre Negra.


O livro conta  a história de Jack Chambers, 20 anos após sua incursão pelos Territórios (livro O Talismã), um detetive aposentado precocemente, que se muda para uma casa na pacata cidade de Frenching Landing, Winsconsin e que quase não recorda dos fatos fantásticos que lhe ocorreram na infância. A paz de nosso personagem é interrompida quando uma série  de crianças  são sequestradas e, posteriormente, assassinadas por um serial killer  conhecido como O Pescador, (que, dentre outras coisas, devora parte das vitimas). O delegado local, Dale Gilbertson, que sem conseguir desvendar os crimes e sofrendo pressão de todos os lados, pede ajuda à Jack nas investigações. De inicio, ele se nega, porém, ao perceber que os crimes tem uma forte relação com os Territórios,  Jack acaba voltando a ativa e descobre que as implicações destes crimes vão muito além de um louco que mata e devora crianças: eles podem contribuir para o colapso de toda a existência...


De início, o livro começa com uma narrativa bem lenta. King e Straub fazem um retrato bem detalhado da cidade e de seus habitantes pra nos inserir dentro da realidade  local. É possível sentir o “cheiro” de tranquilidade emanando da cidade. As coisas começam a mudar quando, logo algumas páginas depois, somos inseridos no interior da delegacia e vemos a aura de cansaço e impotência que envolveu a força policial pois, há um assassino à solta e eles não fazem a menor ideia de quem seja...

Nessas primeiras páginas, já nota-se que há um certo distanciamento no tom narrativo de seu antecessor: enquanto em O Talismã vemos um olhar mais fantástico, aqui, apesar da forma quase irônica que o narrador descreve as situações (mais sobre isso adiante...), é tangível o teor sombrio do enunciado. Conforme as páginas vão passando, essa sensação de obscurantismo vai ganhando corpo tendo seu ápice nas descrições do modus operadi do assassino – que sabemos de antemão quem é, por isso, não espere um quebra-cabeça pra descobrir a identidade do assassino. É quase um relato gore semelhante aos horrores que vemos em filmes como Jogos Mortais e o Albergue. Não bastasse isso, o lado negativo de alguns personagens, principalmente o jornalista Wendell Green, são revelados e é como se fosse um eco da Casa Negra...

Por falar em Casa Negra, uma mansão que é difícil de ver e quase impossível de entrar. É um daqueles locais que vemos em muitas histórias de King que levam para outros mundos, outras realidades. E, assim como o Hotel Hoverlock, está cheia de maldade e sofrimento que a morte rápida seria um caminho melhor, pois ali, é a morada de um ser, uma espécie de um demônio vindo de outra realidade a serviço daquele que quer solapara toda a existência: o Rei Rubro... 

Após este encontro com o coração da cidade, somos apresentados ao nosso, já crescido, Jack Chambers. Esquecido dos horrores que passou para salvar sua mãe, ele vive de boas em as casa esperando os dias passarem. Assiduamente ele se encontra com Henry Leiden, um radialista cego que consegue “enxergar” mais que muita gente. São eles dois, juntamente com o delegado Dale, uma gangue de motoqueiros, Judy Marshal, uma mulher com ligações com os Terrirórios, e um amigo do passado que terão de acabar com esses horrores...

Como eu disse antes, já sabemos quem é o assassino, sendo assim, os autores confiam na força narrativa para nos manter curiosos a chegar até o fim das mais de 700 páginas. São descrições de lugares bem feitas, de sentimentos pulsantes e, acima de tudo, da psique de cada individuo. É notável como começamos a nutrir sentimentos por personagens: passamos torcer por uns, amar outros, ter penas de uns, raiva..., uma gama ampla de sentimentos que vão nos inserindo dentro da história...

Por falar em história, tenho de vos avisar que, primeiro: é importe já ser familiarizado com a saga Torre Negra. Apesar de os autores explicarem o importante para entender a história, creio que será melhor apreciada por aqueles que já tem uma base, uma noção da busca de Roland Deschain e seu ka-tet pela dita Torre. Há referencias diretas aos sapadores, outros mundos (vá então, há outros mundos além deste) ao icônico Rei Rubro, as Irmãzinhas e Elluria e tantas outras coisas presentes na saga que torna a narrativa mais interessante para quem já á conhece...

Segundo: é imprescindível ler O Talismã. Repito, apesar dos autores se esforçarem para preencher as lacunas do passado infantil de nosso personagem, pra mim seria difícil imaginar certas coisas sem ter conhecimento prévio da passagem pelos Territórios, o carinho dispensado por Speedy e, claro, a amizade encontrada em um homem-lobo (Lobo, oh lobo – aqui e agora)...

Dito isso, temos de salientar que, apesar da imersão que a obra permite, ela é longa demais. Os autores se alongaram em alguns pontos tornando a narrativa entediante em alguns momentos, notavelmente no início. Umas 100 páginas à menos seriam o ideal. Mas, passado esse ponto de letargia, torna-se impossível deixar o livro de lado. Você vai cavando em busca do desfecho da obra e quando dá por si, já venceu mais de uma centena de páginas e o relógio já marca duas, três da manhã e, ainda assim não da pra largar. Quer saber o que acontece com nossos personagens. E o final, que é quase de chorar de tristeza , tem um desfecho que deixa em aberto uma possível continuação – que os autores, há alguns anos atrás anunciaram que viria...

Pautada numa atmosfera sombria, e intrinsecamente ligada a saga Torre Negra, A Casa Negra é um livro que incomoda, emociona, assusta, enoja, cria vínculos e mais um carrossel de emoções. Coisa que só é possível quando o autor(es) consegue mexer com aquele eu sentimental presente em cada um de nós. É bom ver dois mestres juntos...

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A Casa Negra ( Black House, EUA, 2001)
Páginas: 701
Autor:  Stephen King e Peter Straub
Editora: Objetiva
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