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[RESENHA] Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Aleksiévitch


"Destino é a vida de um homem, história é a vida de todos nós. Eu quero narrar a história de forma a não perder de vista o destino de nenhum homem"  




Em 1997, uma escola no distrito de Columbine sofreu um atentado de dois estudantes ceifando 12 vidas. A opinião pública tentou traçar uma relação entre o massacre e o fato dos dois jovens, Eric Harris e Dylan Kelbold, escutarem o rock de Marilyn Manson (o que provou-se um erro já que mais tarde descobriu-se que os jovens detestavam Marilyn Manson). Quando o cineasta Michael Moore entrevistou o músico para seu documentário ganhador do Oscar “Tiros em Columbine”, ele perguntou o que Manson diria para as vítimas acerca de tudo que está acontecendo. Manson respondeu: “nada. Eu não diria nada. Eu ouviria o que eles tem a dizer. O que pouca gente fez até agora!”

Esta premissa de Manson, de escutar o ponto de vista das vítimas não é muito usual. Sempre que um determinado acontecimento de proporções gigantescas ocorre, aparecem especialistas na tentativa de elucidar o porquê de tal cabendo as vítimas apenas um pequeno espaço quando, na verdade, elas deveriam ter suas vozes ouvidas e ecoadas. É isso que a ganhadora do Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévich faz em seu emocionante Vozes de Tchernobil sobre o desastre que aconteceu na usina Nuclear de Tchernobil, Ucrânia, em abril de 1986. 

Chegar até o final do livro é como levar um soco no estômago haja vista o aporte emocional presente naqueles relatos. E mais ainda: notar que por mais que nossa empatia trabalhe para diminuir a distância entre o sofrimento alheio e a indiferença, ainda há um abismo que nos distancia de quem sente até hoje o peso da radiação. 
Falam da guerra. Da geração da guerra. Comparam… A geração da guerra? Mas ela é feliz! Tiveram a Vitória! Isso lhes deu uma grande energia vital, ou, como se diz agora, uma poderosa carga de vivência. Eles não temiam nada. Queriam viver, estudar, ter filhos. E nós? Nós temos medo de tudo. Tememos pelos nossos filhos, pelos netos que ainda não temos. (…) Todos estão depressivos. O sentimento é o de estarem irremediavelmente condenados. Para uns, Tchernóbil é uma metáfora, um símbolo. Para nós, é a nossa vida. Simplesmente a vida.  
Svetlana, por um longo período entrevistou um número sem fim de pessoas que tiveram suas vidas modificadas naquele dia. Deixando sua voz de lado para dar lugar a outras vozes, a autora, que nasceu na Bielorrussia, pais que recebeu a maior dose de radiação, faz um compilado devastador, angustiante, pesado, triste e esperançoso do que é a vida pós Tchernóbil. E de que quebra ainda ilustra um panorama do era ser  “o homem” soviético.


Aqui, acompanhamos os relatos angustiantes da esposa que insiste em visitar o marido, bombeiro, vítima da radiação; da mãe que luta para que a filha, que nasceu com sequelas graves, possa ter um tratamento adequado e não sucumba ao preconceito; das várias pessoas que não querem – e não o fazem – abandonar a terra onde nasceram, hoje, contaminada pela radiação; das crianças que tiveram que deixar seu cãozinho para trás. Foram mais de 500 entrevistas que compilam um cenário triste e angustiante do que é a vida pós Tchernóbil.

Mesmo sem usar sua voz para descrever o que representou aquele  desastre, a altora sabe muito bem intercalar os vários depoimentos de forma a tornar o que poderia ser uma Quimera em uma narrativa coesa e dinâmica. 


Eu tenho doze anos. Passo o dia todo em casa, sou inválida. O Carteiro traz à nossa casa duas pensões, a minha e a do meu avô. As meninas da minha turma, quando souberam que eu tinha câncer no sangue, ficaram com medo de sentar do meu lado. De me tocar. Mas eu olhava as minhas mãos, a minha pasta e os meus cadernos. Não havia nada de diferente. Por que tinham medo de mim? Os médicos disseram que eu adoeci porque o meu pai trabalhava em Tchernóbil. Mas eu nasci depois disso. E eu amo papai.    

Entre esses tantos relatos há espaço para um vislumbre do que foi o homem soviético. Um cidadão resiliente que sempre acreditou na figura de um líder salvador mas que na verdade, era só um joguete nas mãos de quem não se importava e se vê perdido com o desmembramento da União Soviética.

Muito do que é relatado no livro de Svetlana parece mais um conto fictício. E não me refiro ao governo que só revelou o que realmente ocorrera quando já era impossível mantes a farsa, mas sim, como aquele insidioso dia pode destruir tantas vidas e modificar a forma como muitas deles observam o que estar vivo.

Longe de ser um livro de ler, Vozes de Tchernóbil é um emaranhado caótico organizado que ilustra o poder de uma narrativa forte quando se dá espaço aos verdadeiros personagens  de uma tragédia. Não espere sentir-se melhor após a leitura, pelo contrário: certas imagens narrativas ão de se misturar nos seus pensamentos diários e  o resultado é a tristeza e impotência. Porém, observar que aquelas pessoas, as vítimas da radiação, a despeito de todo sofrimento ainda acreditam que possa existir algo de bom após a radiação, te faz acreditar que possa existir beleza neste mundo. Mesmo depois da "rosa".
Boa Leitura.

Vozes de Tchernóbil ( Chernobylscaya Molitva, Chernobyl Prayer, 1997)
Páginas: 384
Autor:  Svetlana Aleksiévith
Editora: Companhia das Letras
Comprar: AMAZON 

Livros de Sangue: vol. 1 I o horror em sua forma crua


Livro de contos de Clive Barker

Nota: ★★

Clive Barker conseguiu se firmar como um expoente do terror e fantasia graças a sua grandiosa imaginação. Adentrar o universo criado por Barker é ter certeza de perscrutar histórias que trarão uma gama acachapante de sensações: medo, nojo, ansiedade, prazer, lascívia,  tudo se mistura neste caldo e o resultado só poderia ser ótimo.

Livros de Sangue é uma série de seis livros de contos. Neste primeiro volume, somos apresentados a seis contos onde a surpresa é o que impera. O autor consegue surpreender de forma ímpar com suas histórias que além de inventivas, são escritas com um detalhismo tão profundo que não seria surpresa acreditar serem fatos verdadeiros não fosse a natureza surreal do enunciado.

O primeiro conto, “Livro de Sangue”, que serve como uma espécie de prelúdio tem como premissa uma casa assombrada. Mas, não espere para uma narrativa comum de fantasmas e demônios: uma investigadora de fenômenos paranormais está fascinada com seu novo pupilo, porém, ela desconhece que as mentiras dele irão despertar a ira dos mortos. Neste conto, além de muito terror e violência, há uma nuance muito forte e presente nos livros de Barker: o sexualização - que é retratada de forma mais forte em outro livro seu resenhado aqui no blog, O Desfiladeiro do Medo  - resenha AQUI

Os outros contos vão desfilar toda a genialidade de Clive Barker. Os roteiros são bem engendrados e os personagens são de uma pluralidade incrível. Desde um psicopata (O Trem da Carne da Meia Noite), passando por um porco (Blues do Sangue de Porco) que te fará enxergar esses bichos com outros olhos. E temos até um gigante feito de pessoas (Nas Colinas, as Cidades). De todos eles, destaco o incrível “O Yattering de Jack”, onde um demônio tenta assombrar um homem em particular, porém não será nada fácil. Neste, o humor negro impera dando um tom irônico e inventivo ao conto.  

Livros de Sangue, Vol. 1  é um livro raro por essas bandas e quando encontrado, o preço acaba por afugentar o leitor. Mas, caso você consiga ter acesso a este incrível material, terá de concordar com o que o mestre do terror, Stephen King, disse sobre Clive Barker: “Eu vi o futuro do Horror... E seu nome é Clive Barker”.

Boa Leitura!


Livros de Sangue: vol. I ( Books of Blood: vol. I, 1984)
Páginas: 233
Autor:  Clive Barker
Editora: Civilização Brasileira

[RESENHA] Servidão Humana | um ode a inquietação, abismos e asas...

Neste misto de autobiografia e ficção, o final da jornada só é superado pelo caminho feito até ali...


Nota: ★★

Se você me perguntar como cheguei a este livro a resposta é a seguinte: Se7evn – os sete pecados capitais. Caso você não tenha visto este filme, veja e saberá do que estou falando. Nunca havia lido nada do autor e fiquei maravilhado com sua escrita que consegue criar uma imersão profunda pautada na vida de sofrimento e superação do personagem central que tem um "Q" de autobiografico...

No livro somos apresentados a Phillip Carey que nasce com uma deformidade no pé que sempre será um ponto fraco físico e psicológico. Não bastando isso, a roda indiferente do destino fez com que o personagem perdesse os pais e fosse criado pelos tios que atados a compromissos religiosos com a paróquia, não tem tempo (talvez vontade?) de dedicar o amor que Phillip necessita - principalmente o tio. Doravante, acompanhamos a vida de Phillip, desde sua educação primária com forte viés religioso, passando pelo descobrimento dos prazeres sexuais, as mudanças na forma de ver e se relacionar com o mundo e, talvez o que, num primeiro momento chama mais atenção, sua relação de amor e ódio com Mildred...

Servidão Humana foi escrito no ano de 1915. Como muitos autores da época, William Somerset Mugham, em seus primeiros livros, faz uma mescla de sua vida e ficção: se no livro o Phillip é claudicante, William é gago; ambos estudaram em escolas religiosas e, posteriormente passam a ver a religião como algo claustrofóbico que serve mais para escravizar do que salvar o individuo...

Passeando por muitas searas do conhecimento – arte, filosofia, história, religião... – o autor consegue discorrer com maestria por todas elas de forma profunda, reflexiva e de agradável leitura – ficando só um pouco cansativo os momentos em que ele se alonga em demasia por vários parágrafos discorrendo sobre alguns pintores...

Independente de partilhar ou não com a visão do autor, é inegável que suas ideias tem um embasamento forte o que no mínimo gera um ponto de interrogação na cabeça do leitor. Principalmente no que concerne ao campo da religião: neste tema específico, vemos como Phillip vai aos poucos deixando que mais e mais incertezas tomem forma em sua mente fazendo com que as regras e dogmas cristãos fiquem de lado ante suas próprias sensações e vivências...  

E apesar de flutuar por muitos temas abstratos e intelectuais, o autor não deixa de lado as relações humanas. Assim, vemos a avareza e desejo de nortear a vida de seus pares na figura de seu tio, ou a da boêmia que leva ao ocaso na figura de um conhecido escritor que Phillip conhecera em Paris. Tudo isto feito de forma não apenas a te jogar informações mas para que você sente-se de frente para o espelho e pense: e eu, como vejo tudo isso? Mas, falar de servidão Humana e não citar a relação de Phillip e Mildred é impossível...

Desde as primeiras aparições de Mildred, o autor já deixa claro que ela terá um papel importante no sofrimento e, posteriormente, amadurecimento de Phillip. A forma como ele decide abordar esta relação imprime uma inquietação e até um dose de raiva: as humilhações que Mildred impõem a Phillip remetem aqueles relacionamentos em que uma das partes crê que de uma hora para outra o outro irá se transformar ante o amor lhe dispensado e toda sorte de sofrimento irá acabar. E neste caminho, Phillip, além de sofrer e amargar o dissabor da desilusão, acaba deixando de abraçar outras oportunidades de ser feliz...

Mas esta relação é uma espécie de microcosmo representando toda a vida de Phillip. Sua desilusão com a religião, a descida até a miserabilidade culminando com o limiar da fome até a redenção na figura de um conhecido, traçam um paralelo com a relação nada sadia dele e Mildred. É como se os picos de felicidade entremeados com longos períodos de sofrimento fossem uma extensão direta de sua devoção quase mística a Mildred...

Ler Servidão Humana é mergulhar num mundo onde as certezas sobre o que se é e como se vê as coisas são apenas borrões. Não há nada definido e no percurso de se encontrar no mundo você é jogado no mais puro abismo. Porém, ao se ver envolto nas asas das incertezas e das angústias, para aqueles que não se deixam sucumbir, é possível vencer os muros das próprias barreiras psicológicas e alçar vôos até então inimagináveis...

Boa leitura

Servidão Humana ( Of Human Bondage, 1915)
Páginas: 605
Autor:  William Somerset Mugham
Editora: Globo

[RESENHA - HQ] Do Inferno, de Alan Moore e Eddie Campbel


Nota: ★★

Quem já leu algum trabalho de Alan Moore, sabe que o autor, costumeiramente, faz uma crítica forte ao sistema vigente no qual se passa a obra em questão, tratando de fazer um paralelo sútil, porém marcante, com a nossa sociedade. Vemos isso, por exemplo, na Graphic Novel “V” de Vingança (mais sobre a obra AQUI ) – sim, aquele da máscara dos Anonymous. Em Do Inferno, Alan Moore vai um pouco mais além: não bastasse fazer uma leitura do zeitgeist, ele reconstrói uma parte sombria da história de Londres entregando sua versão dos fatos sobre os crimes de Whitechapel deflagrados pelo icônico e lendário Serial Killer, Jack, o Estripador


O cenário da nossa HQ é uma Inglaterra no fim da Era Vitoriana. Este período foi de uma crescente prosperidade para os habitantes da terra da rainha graças as moedas que entravam aos montes na nação devido a expansão do Império Britânico e pela consolidação da Revolução Industrial. Claro, que toda esta prosperidade não era uniforme: muitos trabalhadores das fábricas recebiam quantias ínfimas para viver e, muitos ainda – principalmente  mulheres – não encontravam serviço algum. É nesta Londres suja e poluída pelos resíduos das chaminés que chegamos até o bairro de Whitechapel.



Quando o corpo de Mary Nichols – a primeira vítima Jack, o Estripador  – foi descoberto no dia 6 de agosto de 1988, com cortes profundos na garganta e partes do abdômen removidos, uma onda de medo e especulações acometeu Londres: quem teria feito isto? Porquê? Foi um crime passional? Mas, poucos creiam que outras quatro corpos – Annie Chapman, Elizabeth Stride, Catherine Eddowges e Mary Jane Kelly – também seriam vítimas de tão brutal prática.

Muito se especulou sobre quem e o porquê dos crimes e várias teorias foram levantadas. Alan Moore, através de uma extensa pesquisa e juntando elementos da teoria do jornalista Stephen Knight, acrescenta alguns tons seus e, apesar da teoria do jornalista já ter sido desacreditada, você, acreditando ou não, dificilmente irá negar a genialidade do mago.

Do Inferno é uma história que não tem classificação livre. As cenas de sexo são explícitas e a violência aguda é mostrada sem maiores pudores. Os traços de Eddie Campbel, que seguem a tendência impressionista da época, podem parecer simples mas conseguem atenuar o teor trash da narrativa e ainda servem para salientar a sujeira e abstração da história resultando num trabalho incrível do desenhista que fez toda a história em preto e branco.


Tela "A Pulga" de William Blake
Desde o início sabemos quem é o assassino. Não há ESTE mistério para ser desvendado. Sendo assim, o autor confia no roteiro envolvente num misto de fantasia (temos até passagens de um vislumbre do futuro) e realidade para que o leitor não se entedie com a história. E, como estamos falando de Moore, espere um afresco brilhante. Seguindo a narrativa por alguns pontos de vista versando por diversas áreas do conhecimento como arquitetura, Maçonaria, metafísica, insanidade, história... ,o autor sugere um intricado enredo de mortes em série e terror para esconder um escândalo que abalaria as estruturas da casa real.

Muitos personagens históricos são mencionados ou aparecem na HQ: Aleister Crowley, Oscar Wild, William Blake, são exemplos de personagens reais que aportam por aqui. Meu destaque vai para uma cena envolvendo a concepção de Adolf Hitler e o eco que isso provocou no bairro de Witechapel.


Momento da concepção de Adolf Hitler

Além de uma narrativa fabulosa, o autor faz questão de colocar um apêndice com as bases para cada cena em questão que renderiam um livro à parte. É importante dar uma olhada a cada final de capítulo para situar-se melhor.  

Como disse no primeiro parágrafo, Moore insere em suas histórias uma forte crítica ao poder dominante. As maquinações das esferas de poder que refletem na vida de gente comum são mostradas de forma aguda pelo autor e isso nos remete a pergunta: e nós, o que podemos fazer? Será que seremos algum dia livres disso? Ou teremos de esperar por um Guy Fowks? 


Moore e Campbel fazem um retrato assertivo da Inglaterra  no final do século XIX nesta saga que discorre sobre Jack, o Estripador resultando em uma obra magnífica, soberba e genial. Não deixem de ler.



Boa leitura

Do Inferno (From Hell, 1989-1996)
Páginas: 592
Autor: Alan Moore e Eddie Campbel
Editora: Veneta
Comprar: Do Inferno

[RESENHA] Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson

Na tentativa de dar novos ares ao gênero, Richard Matheson consegue ir além debatendo a importância de nossos pares e a implicação disso para nossa espécie... 


Nota: ★★

Quando li o livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? de Philip K Dick (resenha AQUI) – e que serve de base para o filme cult Blade Runner – não pude deixar de pensar sobre o que realmente nos torna humanos. O que define nossa humanidade? Que fator intrínseco a nós é o que nos separa, psicologicamente, dos outros grandes primatas? Após a leitura de Eu Sou a Lenda, um questionamento de caráter filosófico e antropológico também vem à tona: ao se tornar um ser único, seria você o detentor da forma correta de se viver? Ou, seria você o monstro e todos os outros, semelhantes entre si, os mocinhos da parada? Usando uma epidemia de vampiros para debater assuntos bem reais como solidão, loucura e nosso lugar no mundo, Richard Matheson entrega um dos melhores livros do gênero.

Quem viu o filme Eu Sou a Lenda, com Will Smith e a brasileira Alice Braga no elenco, sabe qual é o plot do livro. Uma epidemia afeta a população mundial transformando as pessoas em vampiros. Ao que tudo indica, somente uma pessoa não é afetada pelo vírus sendo imune a ele: Robert Neville. Acompanhamos a vida de Neville enquanto sobrevive em meio ao caos de vampiros que querem findar com sua vida.

Apesar da mesma premissa, livro e filme tem condução e desdobramentos diferentes – e aqui nesta resenha, discutiremos somente a obra impressa.

Antes de ser um livro pautado pelo medo causado pelos vampiros, o livro é um belo retrato de um homem envolto com a solidão. É difícil imaginar como fica a mente humana privada do simples, porém importante, convívio com seus semelhantes. Não para Matheson. O autor consegue criar um retrato claustrofóbico e angustiante de uma vida solitária onde nosso personagem vê tudo que foi um dia apenas como memória. Sua vida antiga jaz em algum lugar do passado junto com a memória de sua família. É interessante e assustador perceber como a loucura parece querer se apoderar de Neville e ele luta para não deixar se entregar. E, talvez seu maior trunfo seja a ciência.

Richard Matheson, que foi um dos grande escritores do século passado, um dos deuses do terror, concebeu obras fantásticas, mesmo que pouco conhecidas como o caso do excelente Hell House, A Casa Infernal (resenha AQUI). Ainda que com viés sobrenatural, a ciência faz parte da narrativa e isso imprimi um detalhismo e um sentido de realidade maior ainda.

Sendo a última esperança de redenção na Terra, Neville luta com a solidão se protegendo dentro de paredes reforçadas de seres que parecem normais não fosse o fato de terem repulsa a luz, alho e se alimentarem de sangue. Em meio a este caos, o acompanhamos em sua busca de entender e quem sabe, criar uma cura para este mal. E aí está uma sacada genial do autor.

Apesar de ser um tema bem comum desde Drácula de Bram Stoker (resenha AQUI), Richard Matherson vai um pouco além fazendo um estudo mitológico da raiz vampiresca e na sua versão, há razões para a repulsa a crucifixos, bíblias, alho e tudo mais. Em sua exploração antropológica, o autor faz um paralelo destes e outros tantos mecanismos que apavoram os chupadores de sangue que foi inovador e ajudou a popularizar os Vampiros.

Já não bastasse tudo isso, o autor ainda faz questão de deixar uma pergunta que ecoa de forma muito forte: o que define a normalidade? Na parte final do livro, vemos como os valores das coisas mudaram e como a definição da nossa realidade é definida, como bem  definiu Yuval Harari no perfeito Sapiens, Uma Breve História da Humanidade (mais sobre o livro AQUI), por uma "verdade intersubjetiva compartilhada". A crença em algo comum é o que define qual é o lado negro da força. Foi isso que possibilitou que nossos antepassados prevalecessem sobre os outros primatas tornando o homo sapiens a espécie dominante relegando as outras espécies, primeiro os guetos, posteriormente a extinção. E é isso que nos define como pessoa, Estado e espécie. Chegando no final do livro, é emocionante ver esta relação criando um link direto com os outras espécies do genero homo. Não à toa o livro tem este nome - mas já aviso que é bem diferente do filme.

Terror, medo, solidão, os limites psicológicos testados, vampiros, inovação, fim da humanidade e uma boa dose de reflexão antropo-filosófica, fazem de Eu Sou a Lenda um dos melhores livros do gênero e merecidamente colocam o autor no rol dos grandes autores de seu tempo.     


Boa leitura

O Eu Sou a Lenda (I Am Legend, 1954)
Páginas: 244
Autor: H. Richard Matheson
Editora: Novo Século
Comprar: AMAZON  

[RESENHA] Sete Minutos Depois da Meia Noite, de Patrick Ness

Um livro aparentemente superficial, mas que carrega uma profundidade imensa e que nos faz refletir sobre nossas dualidades, imperfeições e medos além de render algumas lágrimas.

Foto site: saidaminhalente.com 

Nota: ★★★★★

A eminência da perca de um ente querido é algo avassalador. Imaginar que, daqui a pouco, aquele ser que tanta importância tem na nossa vida pode não estar mais aqui é algo difícil de equacionar. Essa situação soa mais desesperadora ainda quando quem passa por isso é uma criança: até que ponto ela consegue suportar? O que será daqui em diante? Como equilibrar a miríade de sentimentos possivelmente conflitantes? Como não sucumbir junto e se deixar levar por esse rio de sofrimento e angústia? Mostrando isso, a perca e a dor pelos olhos de uma criança, Patrick Ness consegue nos brindar com um livro emocionante e belíssimo.

Logo nas primeiras páginas do livro, você já nota que o tema abordado é pesado. Connor O’Maley, um garoto que vive sozinho com sua mãe, Lilly, que está passando por uma fase difícil pois está muito doente e talvez não consiga resistir. Seu pai mora em outro país e sua avó não é das pessoas mais fáceis de conviver. De cara, o autor já nos presenteia com toda essa gama de informações para nos inserir na atmosfera que cerca Connor. Somado a tudo isso, Connor ainda é vítima de bullying  na escola e vem sofrendo, já algum tempo, com um pesadelo que lhe assusta e parece lhe consumir.

É impossível não criar uma ligação automática com Connor. O momento pelo qual ele está passando nos toca profundamente. Ter de equacionar tudo isso com a iminência da perca da mãe requer um espírito de grandeza muito grande para não sucumbir, principalmente se tratando de uma criança. Toda a fleuma aparente de nosso pequenino, esconde um turbilhão de sentimentos fortes e reprimidos, afinal, como reage ama criança com a possível morte da mãe? É neste ponto que surge o “Monstro”.

Aqui as coisas começam a tomar um rumo que, apesar de flertar com o fantástico finca os pés em uma bela alegoria. O Monstro que surge para Connor, é uma personificação da árvore de Teixo que ele avista de sua janela. Apesar da opulência ele não assusta o nosso garoto. Surgindo sempre (QUASE SEMPRE) à meia noite e sete, ele vem pra contar três histórias e ouvir uma quarta.

As histórias narradas pelo Monstro são uma fonte magnifica de reflexão. Apesar de apresentarem uma moral duvidosa aos olhos de Connor, os relatos transmitidos pelo monstro visam mostrar que nem sempre as pessoas são uma coisa só. Como disse Paulo Coelho, "bem e mal são faces diferentes da mesma moeda". Tanto a rainha bruxa, o pároco santo e o garoto invisível guardam lições profundas que tem um propósito bem específico na vida de Connor. Todas as histórias contadas pelo monstro são uma forma de inserir na mente dele que existe sempre uma dualidade na vida. Nem tudo é uma estrada de uma única via, preto no branco. O fato de termos feito algo positivo não implica necessariamente que sejamos bons e a máxima se aplica ao inverso.

Tendo contado sua história, o Montro exige que Connor lhe conte a quarta. Aí, notamos o porquê das histórias do monstro e, principalmente, como é complicado viver em situações extremas. Os sentimentos conflitantes e paradoxais de Connor são um retrato daquilo que nós, seres humanos, somos: seres totalmente complicados. E esta verdade, a verdade de Connor, mostra o quanto isso nos torna frágeis e belos.

O final do livro é algo de embargar a voz de qualquer um. É um sentimento que consegue ser compartilhado mesmo por aqueles que não tenham passado pelo mesmo que nosso garoto. É um momento forte, mas que foi passado ao papel de forma muito bela pelo autor que conseguiu mesclar algo profundo e extremamente triste com uma singeleza magnifica. E toda essa acurácia narrativa não se deve somente a Ness.

A ideia do livro foi originalmente concebida por Siobhan Dowd, porém ela acabou sucumbindo de câncer aos 47 anos antes de terminar a obra. Apesar da recusa inicial, Ness acabou aceitando o desafio e entregou um trabalho que deixaria Dowd orgulhosa. Vale citar também que o livro já se tornou filme e a adaptação conseguiu transpor para as telas toda a carga emotiva do livro com um toque visual incrível. Tem na Netflix e vale à pena conferir.

Tendo como foco a dor da perda, Sete Minutos Depois da Meia Noite é um retrato das nossas contradições que nos impelem por caminhos que nem sempre entendemos, mas que cada qual à sua maneira, salientam aquilo que temos de mais imperfeitos: somos humanos.   

Boa leitura.

Sete Minutos Depois da Meia-noite (A Monster Calls, 2011)
Páginas: 160
Autor: Patrick Ness
Editora: Novo Conceito
Comprar: AMAZON