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[RESENHA] Belas Maldições, de Neil Gaiman e Terry Pratchett | ou, um apocalipse hilário

Vejam! O dia do Senhor está perto, dia cruel, de ira e grande furor, para devastar a terra e destruir os seus pecadores. - Isaías 13:9


Na virada do século XX para o XXI, muitos místicos e profetas acreditavam que esta data marcaria o inicio do fim. A existência humana, pautada pelo pecado e influenciada pelo “Inimigo” finalmente chegaria ao seu momento derradeiro. Eu, que tinha por volta de quatorze anos estava me pelando de medo: será que iria para o céu ou acabaria levando umas garfadas de Satanás numa serventia eterna? Lembro que nas missas, era comum o padre em seus sermões dizer que tudo na nossa vida já estava escrito. Nosso destino era certo. Tudo determinado. Ou seja, Deus já havia passado o pano e sabia o que seria de mim..

Como vocês podem imaginar nada aconteceu e aqui estamos.  Mas não dá pra negar que histórias e profecias  do fim do mundo aguçam a nossa curiosidade. E é sobre isso, fim do mundo e destino que Neil Gaiman e Terry Pratchett juntaram-se para escrever "Belas Maldições: As Belas e Precisas Profecias de Agnes Nutter, Bruxa." O livro é cheio de passagens hilárias e rico em sua mitologia, tenta questionar a ideia de destino. O resultado é realmente muito bom...

Terry Pratchett e Neil Gaiman

O livro consegue te cativar já no inicio. Narrado de forma irônica, os autores vão mostrando como dois seres celestiais, um anjo, Aziraphale, e um demônio, Crowley, fazem de tudo para evitar o que seria o fim do mundo. É na interação entre eles as cenas mais engraçadas. E para conseguir impedir o Armagedon, eles precisam vigiar o nascimento e crescimento do Anticristo, Adam, um garoto que você não esperaria que fosse o vórtice do fim dos tempos. Claro que alguma coisa no caminho dá errado e passamos a seguir ambos e mais um rol de personagens adjacentes na luta hercúlea de barrar o fim profetizado...

E por falar em personagens adjacentes, estes são muito bem construídos: Anathema Device, Newton Pulsifer, Shadwell, o cão do inferno (nem tão infernal assim), são um show à parte. E todos eles, de uma forma ou de outra, acabam cruzando os caminhos de nossos seres celestiais em passagens bem peculiares. Há também a presença dos "Quatro Cavaleiros do Apocalipse", que no caso em quetão são "Os Quatro Motoqueiros do Apocalipse" que carregam bastante mistério mas, infelizmente, o final deles é meio broxante...

Confesso que nunca li nada de Terry Pratchett mas já li algumas coisas de Neil Gaiman e sempre espero um trabalho de excelência. Suas incursões por várias vertentes mitológicas o deixa confortável para surfar nos mais variados credos: mitologia nórdica, africana e, pra mim, seu melhor trabalho, "Deuses Americanos", onde faz uma verdadeira miscelânea de mitologias. Apear disso, e de em certo ponto o autor saber usar isso de forma bem bacana - como quando Crowley se decepciona com seus amigos demônio por seu pensamento "pequeno" - o livro da umas escorregadas no roteiro que faz com que perca um pouco de sua vitalidade. Ainda assim, algumas cenas são bem elaboradas e, não à toa,  se tonará uma série pela Amazon Prime... 

A despeito disso, não dá pra ignorar o fato de ambos abordarem a questão do destino, mesmo que de leve na narrativa...

As Belas e Precisas Profecias de Agnes Nutter, Bruxa., é um livro no maior estilo das centúrias de Nostradamus: só sabemos o que a profecia queria dizer após o fato acontecido. E,  através deste livro e das trajetórias de Crowley, Aziraphale e Adam, os autores questionam até que ponto tudo esta determinado. Mesmo se tratando de profecias e predestinações, será que não podemos nos livrar desta suposta regra e tomar nosso próprio caminho?

"Belas Maldições: As Belas e Precisas Profecias de Agnes Nutter, Bruxa, é um livro hilário, que desafia o determinismo da visão religiosa nos brindando com uma parceria pra lá de bacana. Vale à pena ser lido...



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Belas Maldições: As Belas e Precisas Profecias de Agnes Nutter, Bruxa. (Good Omens: The Nice and Accurate Prophecies of Agnes Nutter, Witch, Reino Unido, 1990)
Páginas: 350
Autor:  Neil Gaiman e Terry Pratchett
Editora: Bertran
Comprar: AMAZON

[RESENHA] Os Filhos de Anansi, de Neil Gaiman



        "O mais importante sobre as canções é que elas são como as histórias: não valem droga nenhuma, a menos que alguém as escute."  

Neil Gaiman, possivelmente, é um dos autores que melhor sabe explorar o mundo das mitologias transformando cada uma delas em algo único. Suas obras são aclamadas no mundo todo e a capacidade do autor de surfar por várias vertentes mitológicas vem desde quando ele era roteirista de uma das mais aclamadas HQs: "Sandman". De lá pra cá, o autor foi se tornando um verdadeiro mestre nesta seara e é impossível não maravilhar-se com a destreza do autor em tratar temas por vezes desconhecidos. É o caso da fantástico "Os Filhos de Anansi".


Os Filhos de Anansi é um livro que sabe dosar divertimento, ação e drama na medida certa. A história começa nos apresentando Fat Charlie, que preparando-se para o casamento, sede aos desejos da futura esposa e convida seu pai, que há muito não via, para a cerimônia. Daí por diante, Charlie  acaba descobrindo que seu pai na verdade está morto e, mais ainda, era um deus. E não qualquer deus: seu pai era o deus dono de todas as histórias. Seu pai era Anansi. Não bastando tudo isso, acaba por descobrir que tem um irmão, Spider, e que este herdou os dons do pai tendo também poderes de deus. Daí em diante sua vida só se complica.

Histórias de fantasia conseguem atrair nossa atenção pelo surreal, pelo fantástico. Porém, as verdadeiras narrativas que ficam impregnadas na nossa mente advém de fatores e problemas muito mundanos e reais. E podemos ver esses fatores presentes em várias obras de Gaiman: "Coraline" e sua tristeza com seu pais e "O Oceano no Fim do Caminho" que aborda temas como amadurecimento e amizade. Aqui, o que se vê de forma mais nítida é o retrato de que familiares mantém um certo rancor com seus pares genéticos.


Neil Gaiman

Charlie dentre outros motivos, guarda rancor do pai por este tratá-lo como um idiota e por vezes o expô-lo ao ridículo. Inclusive, todos o conhecem por Fat Charlie, graças a seu pai que tem um dom incrível que é o das palavras. Esse ranço seguiu Chrlie por toda a vida e é difícil pra ele aceitar que um ser tão poderoso como seu pai podia fazer o que fez. Outro ponto fraterno que vem perturbar a vida de Chraly é seu irmão, Spider. Tudo fica mais devastador para nosso personagem quando seu irmão passa a investir até em sua noiva. Porém, no fim das contas, Charlie e Spider mostram que a verdadeira família, por mais complicada que possa parecer, poder ser nosso verdadeiro trunfo antes os desprazeres da vida...

Outro ponto bem explorado por Gaiman aqui é o poder das narrativas. Durante muito tempo, as histórias e tradições eram passadas para gerações futuras através das palavras faladas. Mesmo após o surgimento da escrita, muitos tradições mantinha-se através da fala – é o caso do incio do nosso cristianismo. E esse poder de "contar histórias" é o maior poder de Anansi. É como se o autor fizesse uma reverência a todos os contadores de histórias, inclusive à ele mesmo. O que seria de nós, homo sapiens sem a capacidade de narrar histórias, fatos e mitos? 

Talvez, você esteja se perguntando que a leitura possa ser um pouco dramática ante o que foi escrito acima. Isso está bem longe da verdade. Gaiman conseguiu criar uma história bem divertida nos presenteando com algumas cenas muito engraçadas permeadas por doses cavalares de ironia...

Apesar de não estar no mesmo nível que seu melhor livro "Deuses Americanos" (claro, na minha opinião) Os Filhos de Anansi sabe explorar muito bem o campo da fantasia nos dando de brinde uma imersão na mitologia africana que apesar de rica, é bem pouco conhecida aqui de nós e de quebra nos mostra que apesar de todas as confusões, diferenças e desavenças, a família é sempre um bem muito importante...

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Os Filhos de Anansi ( Anansi Boys, Eua, 2005)
Páginas: 328
Autor:  Neil Gaiman
Editora: Intrínseca
Comprar: AMAZON

[RESENHA] A Casa Negra, de Stephen King e Peter Straub

“Há outros mundos, pistoleiro, e outros demônios. Essas águas são profundas. Fique atento aos portais. Fique atento às rosas e aos portais ausentes.”
(O Pistoleiro, A Torre Negra I)
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Assim como faria com Danny Torrence de O Iluminado, Stephen King, desta vez repetindo a parceria com Peter Straub, conta a história adulta de um menino que aprendemos a adorar a admirar. Se, no primeiro caso, ouve uma permanência de tom nas histórias, aqui os autores apostam mais no lado sombrio. Não que não haja o tom fantasioso presente nO Talisma, há sim. Entretanto, a história de Jack Chambers, 20 anos após sua odisseia pelos Territórios, é pautada por um atmosfera sombria, flertando em alguns momentos com o gore, trazendo para as páginas uma história da parte sombria que pode existir nas pessoas; de como o mal não modifica a natureza benevolente do individuo, ele apenas repousa em seus iguais; é um livro que incomoda o psicológico mas que crê na ideia que as coisas possam dar certo; e ainda temos uma incursão no universo da saga A Torre Negra.


O livro conta  a história de Jack Chambers, 20 anos após sua incursão pelos Territórios (livro O Talismã), um detetive aposentado precocemente, que se muda para uma casa na pacata cidade de Frenching Landing, Winsconsin e que quase não recorda dos fatos fantásticos que lhe ocorreram na infância. A paz de nosso personagem é interrompida quando uma série  de crianças  são sequestradas e, posteriormente, assassinadas por um serial killer  conhecido como O Pescador, (que, dentre outras coisas, devora parte das vitimas). O delegado local, Dale Gilbertson, que sem conseguir desvendar os crimes e sofrendo pressão de todos os lados, pede ajuda à Jack nas investigações. De inicio, ele se nega, porém, ao perceber que os crimes tem uma forte relação com os Territórios,  Jack acaba voltando a ativa e descobre que as implicações destes crimes vão muito além de um louco que mata e devora crianças: eles podem contribuir para o colapso de toda a existência...


De início, o livro começa com uma narrativa bem lenta. King e Straub fazem um retrato bem detalhado da cidade e de seus habitantes pra nos inserir dentro da realidade  local. É possível sentir o “cheiro” de tranquilidade emanando da cidade. As coisas começam a mudar quando, logo algumas páginas depois, somos inseridos no interior da delegacia e vemos a aura de cansaço e impotência que envolveu a força policial pois, há um assassino à solta e eles não fazem a menor ideia de quem seja...

Nessas primeiras páginas, já nota-se que há um certo distanciamento no tom narrativo de seu antecessor: enquanto em O Talismã vemos um olhar mais fantástico, aqui, apesar da forma quase irônica que o narrador descreve as situações (mais sobre isso adiante...), é tangível o teor sombrio do enunciado. Conforme as páginas vão passando, essa sensação de obscurantismo vai ganhando corpo tendo seu ápice nas descrições do modus operadi do assassino – que sabemos de antemão quem é, por isso, não espere um quebra-cabeça pra descobrir a identidade do assassino. É quase um relato gore semelhante aos horrores que vemos em filmes como Jogos Mortais e o Albergue. Não bastasse isso, o lado negativo de alguns personagens, principalmente o jornalista Wendell Green, são revelados e é como se fosse um eco da Casa Negra...

Por falar em Casa Negra, uma mansão que é difícil de ver e quase impossível de entrar. É um daqueles locais que vemos em muitas histórias de King que levam para outros mundos, outras realidades. E, assim como o Hotel Hoverlock, está cheia de maldade e sofrimento que a morte rápida seria um caminho melhor, pois ali, é a morada de um ser, uma espécie de um demônio vindo de outra realidade a serviço daquele que quer solapara toda a existência: o Rei Rubro... 

Após este encontro com o coração da cidade, somos apresentados ao nosso, já crescido, Jack Chambers. Esquecido dos horrores que passou para salvar sua mãe, ele vive de boas em as casa esperando os dias passarem. Assiduamente ele se encontra com Henry Leiden, um radialista cego que consegue “enxergar” mais que muita gente. São eles dois, juntamente com o delegado Dale, uma gangue de motoqueiros, Judy Marshal, uma mulher com ligações com os Terrirórios, e um amigo do passado que terão de acabar com esses horrores...

Como eu disse antes, já sabemos quem é o assassino, sendo assim, os autores confiam na força narrativa para nos manter curiosos a chegar até o fim das mais de 700 páginas. São descrições de lugares bem feitas, de sentimentos pulsantes e, acima de tudo, da psique de cada individuo. É notável como começamos a nutrir sentimentos por personagens: passamos torcer por uns, amar outros, ter penas de uns, raiva..., uma gama ampla de sentimentos que vão nos inserindo dentro da história...

Por falar em história, tenho de vos avisar que, primeiro: é importe já ser familiarizado com a saga Torre Negra. Apesar de os autores explicarem o importante para entender a história, creio que será melhor apreciada por aqueles que já tem uma base, uma noção da busca de Roland Deschain e seu ka-tet pela dita Torre. Há referencias diretas aos sapadores, outros mundos (vá então, há outros mundos além deste) ao icônico Rei Rubro, as Irmãzinhas e Elluria e tantas outras coisas presentes na saga que torna a narrativa mais interessante para quem já á conhece...

Segundo: é imprescindível ler O Talismã. Repito, apesar dos autores se esforçarem para preencher as lacunas do passado infantil de nosso personagem, pra mim seria difícil imaginar certas coisas sem ter conhecimento prévio da passagem pelos Territórios, o carinho dispensado por Speedy e, claro, a amizade encontrada em um homem-lobo (Lobo, oh lobo – aqui e agora)...

Dito isso, temos de salientar que, apesar da imersão que a obra permite, ela é longa demais. Os autores se alongaram em alguns pontos tornando a narrativa entediante em alguns momentos, notavelmente no início. Umas 100 páginas à menos seriam o ideal. Mas, passado esse ponto de letargia, torna-se impossível deixar o livro de lado. Você vai cavando em busca do desfecho da obra e quando dá por si, já venceu mais de uma centena de páginas e o relógio já marca duas, três da manhã e, ainda assim não da pra largar. Quer saber o que acontece com nossos personagens. E o final, que é quase de chorar de tristeza , tem um desfecho que deixa em aberto uma possível continuação – que os autores, há alguns anos atrás anunciaram que viria...

Pautada numa atmosfera sombria, e intrinsecamente ligada a saga Torre Negra, A Casa Negra é um livro que incomoda, emociona, assusta, enoja, cria vínculos e mais um carrossel de emoções. Coisa que só é possível quando o autor(es) consegue mexer com aquele eu sentimental presente em cada um de nós. É bom ver dois mestres juntos...

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A Casa Negra ( Black House, EUA, 2001)
Páginas: 701
Autor:  Stephen King e Peter Straub
Editora: Objetiva
Comprar: AMAZON

[RESENHA] O Medalhão de Ísis, de C.S. Camargo

Religião, fé e magia se juntam pra criar uma história rica e interessante mas sem deixar de trabalhar de forma profunda os personagens...
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O gênero de fantasia consegue criar mundos onde tudo poder ser possível e o inimaginável se torna tão real quanto eu ou você. É um estilo que, por sua natureza, não se prende aos limites da física/química/biologia, onde o que determina o limiar do impossível é a cabeça do autor. Desde os primeiros relatos mitológicos, este gênero conseguiu criar verdadeiros ícones da cultura pop que atravessaram anos e estão, volta e meia, na lista dos mais vendidos. É o caso de Senhor dos Anéis Harry Potter, só pra citar alguns. Nos últimos anos fomos invadidos por uma leva imensa de livros de fantasia e, no Brasil, que apesar do pouco hábito de leitura de seus cidadãos, também embarcou nesta leva trazendo muito material de excelência. Mas, dentro deste oceano de livros de Fantasia, como escolher aquele que irá te abrir novos horizontes ao invés de se decepcionar com uma leitura pobre em sem sentido? Ó, meus irmãos, perguntem às suas esposas, hahahaa. Foi isto que fiz e,  apesar de torcer o nariz no início, também me rendi aos encantos de O Medalhão de Ísis.

Como disse pra vocês no parágrafo anterior, de começo, torci o nariz para o livro pois,  pela sinopse, pensei que o livro seria somente: uma menina que descobre que tem um papel importante no destino da humanidade + um cara que no principio ela não gosta + posteriormente eles se apaixonam + tem de se separar por motivos diversos + conseguem se reconciliar e salvar a humanidade = UMA GRANDE DE UMA MERDA.

Porém, conforme fui me debruçando sobre as páginas, fui percebendo que o livro não é SÓ ISSO – na verdade, fica bem longe disso. O que a autora C. S. Camargo – que é brasileira – criou, é um livro que explora de forma rica a cultura, a fé e a mitologia do Oriente Médio do séc. IV não se esquecendo de criar personagens com profundidade em uma história com uma dose assertiva de suspense, aventura e magia.

O livro começa com os preparativos para o casamento da princesa Ahlam, do reino de Nifah, com o príncipe Marzuq, de um reino vizinho. O casamento visa acalmar os ânimos entro os dois reinos que vivem em um quase conflito. Juntamente a isso, um terceiro reino, Hasfah, também está interessado nesta união uma vez que o rei de Nifah, irá presentear sua filha com um medalhão, Ankh - que tem poderes mágicos - que há tempos o rei de Hasfah está buscando. Após  a invasão da cerimônia de noivado pelo povo de Hasfah, um de seus melhores soldados, Faris Zahir, acaba capturando a princesa e ambos acabam embarcando em uma aventura emocionante onde o que está em jogo é o destino da raça humana perpetrada pelo deus Seth contra seus parceiros divinos Ísis e Osíris.

O inicio do livro é meio chatinho. A relação de Ahlam com  Faris é recheada de clichês e soa até meio ingênua. Porém, conforme as páginas vão passando há um aprofundamento na relação entre eles. Juntamente com as questões místicas que vão sendo desveladas no decorrer da narrativa, a interação entre eles vai ganhando camadas de complexidade tornado um início que era de ruim a razoável, em uma história que faz jus ao tamanho da história do Egito.

Por falar em Egito, é interessante as informações que a autora vai soltando sobre os costumes, geografia e historia desta nação milenar. Aqui, foi feito um trabalho de pesquisa bacana casando de forma orgânica com o misticismo presente: a aparição do deus Hórus, do deus jacaré Sekbah e tantos outras nuances mitológicas – como um dos personagens mais legais, o gênio – mostram que tudo está a serviço da narrativa, não havendo espaço para histórias paralelas que não levam a canto algum. Desde que li a saga A Crônica dos Kane, de Rick Riodan, que eu não lia uma história tão bacana tendo como pano de fundo o Egito e os deuses lutando entre si, com a ajuda dos humanos, para manter o equilíbrio  dos planos terreno e cósmico.

E, ficando ainda no misticismo, em determinado momento, há uma cena  que Ahlam, o gênio e Faris precisam passar por um desafio para juntar uma das peças que compões o medalhão que me lembrou muito aquela cena da de Harry Potter em que os participantes jogam um xadrez mágico onde o que está em jogo é a vida deles. Achei uma referencia muito interessante a uma das maiores histórias de fantasia da atualidade.

Estou falando aqui sobre todos os pontos assertivos do livro mas ainda não falei do casal principal: Ahlam e Faris. A relação entre ambos, que vai crescendo e ganhando robustez no decorrer da narrativa, é elevada a um outro patamar quando os mistérios e poderes do medalhão vão sendo descobertos pela dupla e, por conseguinte, por nós também. E quando descobrimos de forma parcial o porque deles dois estarem envolvidos nesta trama magniloquente, vemos como não temos pontas soltas e escolhas ao acaso. E, aqui, a autora faz uma leitura precisa da jornada do herói – veja figura abaixo – e é bom quando vemos que mesmo num país onde a leitura não é o forte da nação, uma autora consegue trazer esses temas de forma tão certinha.


O Medalhão de Isís é um livro que vai evoluindo no decorrer das páginas, consegue trazer o misticismo de forma a enriquecer a narrativa mas sempre tendo como ponto forte a relação entre os personagens que te impelem a continuar devorando página por página na busca de saber até onde esses mistérios vão te levar. Além disso tudo, é escrito por uma autora brasileira (C.S. Camargo, guarde este nome): precisa de um motivo melhor pra ler?!  

Nota: ★★★★

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O Medalhão de Ísis ( Brasil, 2014)
Páginas: 242
Autor:  C. S. Camargo
Editora: Arwen
Comprar: AMAZON