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Melhores Adaptações de Livros



Se você que é fã de determinado livro sabe a expectativa que se cria quando é anunciado que ele será adaptado para o cinema. A ideia de ver nossos personagens e histórias favoritas na tela grande nos enchem de expectativa. Porém, nem sempre esta mudança de mídia funciona. Algumas histórias que conseguiram arrebatar um grupo considerável de admiradores em sua versão literária são verdadeiras decepções cinematográficas. Mas, calma meu jovem Padwan. Eis que vos apresento a lista com as melhores adaptações literárias na história do cinema..., ops, melhor dizendo, as que eu considero as melhores adaptações...

Claro, alerto desde já que esta é uma lista EXTREMAMENTE pessoal. Tens todo o direito de discordar!!! E não estranhe se faltar alguma obra que consta nas listas de todos os críticos como melhores adaptações do universo. Só coloquei aqui os livros adaptados que eu li, ok? E outra coisa: os livros não estão obedecendo a nenhuma ordem de preferência e sim, postos de forma aleatória. Bem, chega de lero lero e vamos lá...

Blade Runner 
Do diretor Ridley Scott, 1982 – baseado no livro “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?”, de Philip K. Dick de 1968 (comprar livro: amazon)


O filme  mantém a mesma pegada distópica do livro conseguindo elevar a um degrau à mais. A obra de Dick, apesar de ser ótima, parece um negócio meio inacabado. Ridley Scott pegou este material e fez algo incrível  sendo considerado por muitos um dos melhores filmes de Ficção Científica . Merece um lugar nesta lista... 

O Silêncio dos Inocentes
Do diretor Jonathan Demme, 1991 – baseado em "The Silence of the Lambs", de Thomas Harris de 1988  (comprar livro: amazon)

Anthony Hopkins conseguiu assustar muita gente na pele deste psiquiatra comedor de gente (literalmente). O livro (que ainda contém outras duas sequências), rendeu uma parceria cinematográfica entre Hannibal Lecter e Clarice Staling, que deu tão certo que conseguiu ganhar quatro das cinco mais "importantes" categorias do Óscar: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Adaptado. Não poderia faltar aqui...

Um Sonho de Liberdade
Do diretor Frank Darabont, 1995 – baseado no conto “Rita Hayworth e a redenção de Shawshank”, de Stephen King de 1982 (comprar livro: amazon)

Resultado de imagem para gif movie The Shawshank Redemption
Presente na coleção de contos "As Quatro Estações", o filme é um dos mais bem avaliados do IMDB. A história do contador que é preso de forma injusta e faz tudo para fugir tendo que aguentar até onde a maioria sucumbiria, é daqueles filmes que ao subir os créditos, você se sente alguém melhor...
obs.: outra ótima adaptação desse livro de contos é da história "O Corpo" que gerou o filme "Conta Comigo)...
obs. 2: E já lhes aviso que  King aparecerá por aqui de novo... 

O Senhor dos Anéis
Do diretor Peter Jackson, 2001 – baseado na saga “O Senhor dos Anéis”, de J. R. R. Tolkien de 1954 à 1955 (comprar livro: amazon)

Resultado de imagem para gif movie the lord of the rings Acho que todos os fãs da saga do anel ansiavam por uma adaptação daa obra, escrita por J. R. R. Tolkien. Entretanto, paradoxalmente, também tinham receio: a história de Tolkien era muito rica e difícil de adaptar. Mas, Peter Jackson deu conta do recado e criou uma das melhores franquias do cinema. Todos os três filmes conseguiram mais de 15 Óscars sendo o Retorno do Rei, o terceiro, agraciado com doze estatuetas. Já adaptação do livro O Hobbit...


Na Natureza Selvagem
Do diretor Sean Penn, 2008 – baseado no livro “Na Natureza Selvagem”, de Jon Krakauer de 1998 (comprar livro: amazon)

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O filme trata da vida do jovem Christopher Johnson McCandless ou, Alexander Supertramp (como ele se autodenominou). Um garoto com espirito irrequieto que desiludido com o mundo em que vive, decide sair e viver a vida com quase nada. É um filme emocionante, cheio de conceitos e ideias que me fizeram ver a vida de um jeito diferente. Além disso, há uma trilha sonora espetacular composta especialmente para filme pelo astro Eddie Vedder. Merece um lugar aqui...

O Iluminado
Do diretor Stanley Kubrick,1980 – baseado no livro “O Iluminado”, de Stephen King de 1977 (comprar livro: amazon)

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Sim, sim, eu sei que Stephen King não gostou nenhum pouco da adaptação do livro feita por Stanley Kubrick (e muitos leitores concordam, afinal, para muitos, este é o melhor livro de King). Apesar do final ser bem diferente, gosto muito de ambos e o filme, ao meu ver, consegue criar um ambiente de imersão forte não se valendo de jump scares para assustar o espectador. É algo mais visceral e atmosférico. Além disso, Jack Nicholson protagoniza uma das cenas mais icônicas do cinema – “Here’s Johnny...

O Exorcista
Do diretor William Friedkin,1973 – baseado no livro “O Exorcista”, de William Peter Blatty de 1977 (comprar livro: amazon)

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Dizem que uma maldição caiu sobre as pessoas que participaram deste filme: mortes, acidentes, sustos, enfim: mexer com o espirito Pazuzu teve seus perrengues. A despeito disso, a adaptação do livro de William Peter Blatty – que reza a lenda, não tencionava dar vida a um livro de terror – é considerado por muitos o melhor filme do gênero. Inclusive sendo o único do gênero a concorrer ao Óscar de melhor filme. Eu, sempre que assisto tomo alguns cagaços – sem falar naquela musiquinha...

Laranja Mecânica
Do diretor Stanley Kubrick ,1971 – baseado no livro “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess de 1962 (comprar livro: amazon)

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Li este livro recentemente e a obra de Anthony Burgess já é um dos favoritos da vida. O filme, por sua vez, assisti pela primeira vez há um tempão. Isso faz uns quinze anos. De lá pra cá, já assisti mais algumas vezes e sempre descubro alguma coisa nova nesta adaptação levado as telonas pelo sempre excelente Stanley Kubrick. Filmaço...

V de Vingança
Do diretor James McTeigue, 2005 – baseado na HQ “"V" de Vingança”, de Alan Moore e David Lloyd de 1982 à 1983 (comprar livro: amazon)

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A ideia de um individuo contra o sistema é atrativa demais. Quando este individuo é subproduto das vilânias deste mesmo sistema, as coisas ficam melhores ainda. Mas, oque mais me atrai nesta obra não é só a distopia, o governo tirano e suas maquinações para se manter no poder. Sobretudo, o magnetismo sobre mim, vem principalmente em decorrência da análise sobre as pessoas  e como nós, como seres sociais, nos curvamos ante pessoas com respostas fáceis e discursos messiânicos e lhes entregamos a faculdade de fazer o que quiser. Claro que o roteirista criador do HQ, Alan Moore não gostou nada da adaptação (para ele, adaptações de outras mídias para as telas não tem razão lógica de existir).

O Bebê de Rosemary
Do diretor Roman Polanski ,1969 – baseado no livro “O Bebê de Rosemary”, de Ira Levin de 1967 (comprar livro: amazon)



Roman Polanski é um diretor cercado de polêmicas e tragédias. Sobreviveu ao Holocausto, teve sua esposa grávida assassinada no massacre comandado por Charles Manson e, para fechar, é um pedófilo confesso. A despeito de sua vida nada exemplar, Polanski é um dos grandes diretos vivos. Em O Bebê de Rosemary, ele conseguiu transpor a atmosfera opressora do livro trazendo um trailer psicológico com toques de sobrenatural na medida certa. Foi o filme que alçou o diretor ao estrelato e colocou o nome de Ira Levin nos holofotes da literatura...

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É isso aí pessoal. Este foi meu Top 10 de melhores adaptações. Provavelmente esqueci algum e, caso você tenha suas preferencias, deixe aí nos comentários. Daqui uns dias farei outro com aqueles que sei não serem filmes excelentes mas que de uma forma ou outra conseguiram me cativar...
Falous... 

Filme "Extraordinário" é uma manual prático de como emocionar o espectador...


A única razão de eu não ser comum é que ninguém além de mim me olha dessa forma
(August Pullman)
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Um dos grandes desafios de adaptar uma obra literária para as telonas é conseguir captar a essência da obra original e reproduzi-lá em outra mídia. São muitos os casos de livros de sucesso que solaparam violentamente quando foram para às telonas. Quando o livro em questão tem seu ponto forte em emocionar o leitor, fazer emergir esta mesma emoção no telespectador, sem se tornar uma coisa pedinte e melosa, é mais difícil ainda. Graças ao lado luminoso da Força, não é o caso da obra em questão, pois o diretor Stephen Chbosky conseguiu fazer algo Extraordinário (hahah, perdoem-me, não deu pra segurar o trocadilho...)

Adaptado do livro homônimo de 2013 da autora R.J. Palácio (resenha AQUI), Extraordinário conta a história de Ausgust Pullman, um garoto que nasceu com problemas genéticos graves o que determinou que ele apresentasse uma aparência diferente. Educado por sua mãe em casa, Auggie foi meio que criado dentro de uma redoma de amor e proteção dos males externos por sua família. Porém, seus dias de tranquilidade são abalados quando seus pais decidem matricula-lo em uma escola regular para cursar a quinta série...

O filme é dirigido por Stephen Chbosky. Ele já dirigiu outra adaptação muito carinhosa e querida pelos fans, As Vantagens de Ser Invisível. Aqui, ele soube mesclar o emocional com humor de forma precisa levantando questões relevantes para nossa convivência como ser social: o diferente é ruim?  por quais motivos vale à pena lutar? O quanto deixamos de enxergar quando nos focamos demais em  um ponto só? Crianças são sempre inocentes? É tão difícil assim ser gentil? Será que minha vida é realmente tão pior que a sua? São perguntas que vão sendo feitas no decorrer da trama e aparecem sempre nos momentos certos de cada cena. Muitas delas mexem com nossos sentimentos nos fazendo reavaliar muitas coisas sobre os outros e principalmente, sobre nós mesmos. Mas o autor sabe dosar o apelo emocional do filme com cenas engraçadas o que suaviza a narrativa. Li o livro e tinha receio que fizessem um negócio sentimentalóide com o objetivo de trazer emoções de forma gratuita. Não foi o caso. E tudo isso funciona, também, pela escalação do elenco...

Olwen Wilson faz o pai de Auggie, um cara engraçado que sabe que o mundo lá fora tem tudo pra dizimar o filho mas tenta levar tudo com muito bom humor; Isabel Pullman ( Julia Roberts)  a mãe de Auggie, que basicamente parou sua vida pra “viver” a do filho. Abnegada, não mede esforços pra tornar o mundo de Auggie melhor o que acaba deixando-á míope para outra coisas como a filha mais velha, Via Pullman (Izabel Vidovic), que aprendeu a viver à sombra do irmão de forma até compreensiva, Porém, como qualquer um de nós precisa de atenção e sente que é deixada de lado...

A vida na escola não é fácil para Auggie. Acostumado com os olhares assustados das pessoas, ele não está preparado para uma das faces abstrusas da psiquê humana: bulliyng. Apesar dos cuidados que o diretor da escola toma, é complicado controlar crianças quando estas decidem serem más e há um deles,  que é particularmente terrível. Mas o autor faz uma pergunta sobre o porque deste garoto ser ruim e a resposta pode estar externa à ele: há uma cena com os pais dele conversando com o diretor mostrando o quanto podemos incutir em nossas crianças comportamentos negativos e execráveis pautado num manto de que temos o direito para tal...

E, claro, um bom filme com crianças no elenco não pode faltar amizade. Will (Noah Jupe) acaba se aproximando de Auggie a pedido do diretor mas acaba realmente gostando dele. Mas, nem todos os outros alunos gostam do novo aluno e ir contra o comportamento dos outros à sua volta requer muita presença de espirito e foco naquilo que ser quer. Por isso, em uma determinada cena da festa de Halloween, Will faz algo que acho "compreensível" e evidencia o quanto às vezes, trabalhamos para manter perto pessoas ou algo que nem queremos de fato. Fazemos somente para pertencer, pra não ser o diferente...

Reparem que não falei muito de Auggie. Pois bem, é de proposito. Se fosse falar aqui sobre ele, este texto ficaria do tamanho de uma monografia tão amplo os ensinamentos que este garotinho nos traz. Vivido de forma ótima por Jacob Tremblay, Auggie sabe que é diferente mas não quer nada melhor nem pior que os outros: só quer ser comum. E o desenrolar da sua vida com aprendizados e percas é de encher os olhos de tão emocionante. Há uma cena no final do filme, num acampamento de verão em que Auggie e Will tem um determinado problema mas que graças a alguns fatores (pessoas?) que eles não imaginavam, conseguem se safar que é phoda. O diretor conseguiu transmitir tudo o que aquilo representou para Auggie sem dizer nada. Só mostrou. Foi foda pá caráleo (fiz um esforço “daqueles” pra não chorar... =) e aquilo toca a gente de forma tão profunda e me lembra que em alguns momentos, gestos tão simples podem significar uma vida inteira...

Belo, engraçado, emocionante e cheio de aprendizagens, Extraordinário faz jus ao material fonte entregando um filme bonito que deve ser apreciado por todos aqueles que tencionam tornar-se algo melhor do que são agora. São lições pra se levar pra vida toda pois como disse o diretor Buzanfa: “se forem apenas um pouco mais gentis que o necessário, alguém, em algum lugar, algum dia, poderá reconhecer em vocês, em cada um de vocês, a face de Deus...”  


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Extraordinário (Wonder, EUA 2017)
Roteiro: Jack Thorne, Steve Conrad, Stephen Chbosky (baseado em romance de R.J. Palacio)
Direção: Stephen Chbosky
Elenco: Jacob Tremblay, Julia Roberts, Owen Wilson, Izabela Vidovic, Danielle Rose Russel, Noah Jupe, Millie Davis, Bryce Gheisar, Mandy Patinkin, Daveed Diggs, Nadji Jeter, Ali Liebert, Elle McKinnon, James Hughes, Ty Consiglio, Crystal Lowe, Kyle Harrison Breitkopf, Sonia Braga 
Duração: 113 min.

[CRÍTICA] filme, Blade Runner 2049


Dennis Villeneuve ousa em sua continuação de Blade Runner e nos deixa a seguinte pergunta: afinal, importa se somos humanos?
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Blade Runner não foi um sucesso imediato em sua época de lançamento. Pouca arrecadação e críticas em sua maioria negativas pareciam decretar que este seria mais um daqueles filmes que se esperavam muito mas que não mostrou para o que veio. Porém, no decorrer dos anos, a crítica passou a ver a película com outros olhos e paulatinamente, a obra do diretor Ridley Scott alcançou o patamar de clássico da ficção cientifica com a honra de ser um dos melhores do gênero (para muitos, o melhor).  Quando foi anunciada a continuação muitos ficaram receosos.  Pra que me mexer em algo que se consolidou? Apesar do diretor escalado para o projeto, Dennis Villeneuve, ter mostrado uma competência sólida em sua filmografia, a desconfiança ainda pairava. Porém, após a exibição, o que se viu foi uma obra que segue a cartilha das continuações de sucesso: mantém a essência e atmosfera da obra original mas toma novos rumos expandindo o  universo criando sua própria filosofia...

Blade Runner – 2049, narra a história onde a Tyrell Corporation – responsável pela criação dos androides, ou replicantes. Após problemas com as versões Nexus 8, quase fale, porém é comprada por Niander Walacce (Jared Leto), que expande e aumenta o tamanho da companhia desenvolvendo replicantes mais obedientes aos humanos. O Blade Runner K (Ryan Gosling), acaba descobrindo uma conspiração para manter um segredo, e parte em busca de Rick Deckard (Harrison Ford) que talvez tenha as respostas que ele busca. Não dá pra falar muito muito mais sobre o filme pra não estragar a surpresa de quem ainda não viu. Não que as reviravoltas sejam a essência deste filme, não são! Mas é sempre legal manter um certo desconhecimento do que irá acontecer num filme de investigação...

Dennis Villeneuve é um caso raro de diretor que apresenta uma filmografia relativamente extensa (nove filmes) e não errou a mão em nenhum. Seus filmes apresentam uma atmosfera pesada, um ar de perigo em cada esquina, de urgência (mas sem ser apressado) onde cada frame, cada cena pode ser significativo. Aqui ele mantém isso de uma forma mais robusta, mais opulenta...

Aproveitando os vários ganchos que a história original propiciou, Villeneuve puxa cada um deles mas não querendo ser uma cópia do filme de Scott. Ele subverte o sentido central da obra de 83 sabendo aproveitar todos os acertos do outro filme elevando-os um grau acima. E faz isso sem pressa nenhuma. As cenas são conduzidas pra levar o espectador a imergir na obra. Não apenas vê-la, mas senti-la. Faz isso com uma cinematografia cheia de cores e luzes piscando mas em mundo sujo, asfixiante. A paleta de cores evoca uma ideia noir que se completa com uma trilha sonora forte que sabe a hora certa de elevar o volume. A criação de mundo é toda espetacular. Você consegue sentir que aquele mundo seguiu adiante e mesmo assim, ou por conta disso, ainda apresenta uma beleza que parece nociva, quase erótica. Há um uso muito acurado de projeções visuais no longa e muitas delas, apesar de servirem seu propósito original – propaganda – tem muito a dizer sobre a trama e principalmente os personagens...

Falando em personagens, aqui os atores estão todos excelentes. Ryan Goslyn faz um replicante que se depara com  um mistério gigantesco que diz respeito ao mundo ao qual ele vive mas também é algo pessoal, íntimo que muda muito do que ele sabe. E ele consegue transmitir  toda dúvida e incerteza através do olhar, do jeito cansado; Harrison Ford mantém a classe de sempre. Quando ele aparece eu tive quase que um Uou. Harrison traz um Deckar envelhecido mas não inválido. A solidão – ou não – fizeram ele se cercar de cuidados e  medos e o ator transmite tudo isso  dentro de um estoicismo calculado; a lindíssima Anna de Armas dá um show de atuação. Ela faz..., bem, não vou falar pra não estragar a surpresa, mas tem um papel muito importante pra entender a ESSÊNCIA do filme. Há uma cena envolvendo de sexo com ela, K e outra replicante que me lembrou muito uma cena do filme Ela . Porém aqui, a cena é mais impactante. É quase uma viagem psicodélica que casa certinho com a premissa e atmosfera do filme; Jared Leto na pele de Niander Wallace, apesar da brevidade de suas cenas, faz um CEO extremamente inteligente  e perigoso – meio que apaga seu papel em Esquadrão Suicida – e você sente a ameaça exalando dele...

O roteiro do filme, além de acertar em não apressar as coisas, dá espaço para que todos os personagens apareçam na medida do necessário e quando preciso, como no caso de K, só é dito o necessário pra não diminuir a atmosfera de desconhecido. Mas tudo isso não seria nada se o diretor não tivesse ousado em mudar as perguntas do anterior mas sem cortar de todo o fio que as liga. Se no primeiro a pergunta que ficava era o que nos torna humanos, em Blade Runner 2049(adaptado do livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? , de Philip K Dick) a pergunta é: importa se somos humanos? Ou seja, transmuta de uma pergunta mais intimista e existencial para algo mais social. E esta pergunta vem num momento muito importante da história do homem...

No decorrer da história, o homo sapiens dobrou todas as outras formas de vida de acordo com suas necessidades e o fez/faz com a premissa de que somos a “raça” superior, a mais inteligente, mais apta. Isso é muito bem descrito no ótimo Spiens de Yuval Noah Harari. Entretanto, com o advento das tecnologias da informação e seu processo constante de ir além, já se avizinha no horizonte formas de existência que não estamos de todo preparados. Remédio nootrópicos, a fusão do homem com partes cibernéticas e a tão buscada inteligência artificial. Segundo o mesmo Harari em seu outro best seller, Homo Deus, e outros pesquisadores, esses eventos não demoraram mais que cinco, seis décadas pra acontecer. Como nos relacionaremos com esses seres que, em teoria, serão aquilo que o sapiens é hoje? Sem contar nas diversas barbáries que ocorreram no decorrer da história com base no principio da superioridade das raças: escravidão, genocídios, nazismo, dentro outros demônios do passado e do presente, se baseiam na ideia de superioridade de um grupo ante outro com ênfase na desumanização do individuo... 

Apesar de toda essa grandiosidade, Blade Runner 2049 foi mal de bilheteria. O diretor especula que possa ter sido pela trama que pouco foi divulgada – bem diferente do que ocorre com a maioria dos blockbusters. Alguns argumentam que o ritmo lento e o tamanho do filme atrapalharam. Independente dos motivos, o filme tem tudo para repetir os passos de seu irmão mais velho e se tornar um cult (claro, só o tempo dirá), haja vista que ele consegue manter a mística do primeiro filme sem parecer uma corruptela pra arrecadar dim-dim, acrescentando seus próprios méritos e acertos. É esperar pra ver...
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Blade Runner - 2049 ( EUA, 2017)

Roteiro: Hampton Fancher, Michael Green (baseado em personagens criados por Philip K. Dick)

Direção: Denis Villeneuve

Elenco: Ryan Gosling, Harrison Ford, Dave Bautista, Robin Wright, Mark Arnold, Vilma Szécsi,  Ana de Armas, Wood Harris, David Dastmalchian, Tómas Lemarquis, Edward James Olmos


Duração: 163 min.


[CRÍTICA] filme, Aniquilação


“Não está morto o que eternamente jaz inanimado, em estranhas realidades, até a morte pode morrer  
(O Chamado de Cthulhu – H.P. Lovecraft)

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Antes de mais nada, vale ressaltar que este filme é passível de interpretaçãoes. Eu cheguei a algumas e decidi analisa-lo a luz daquilo que mais me chamou a atenção, Ok?

Alex Garland é um roteirista/diretor que no decorrer de seus filmes apresenta um olhar pessimista com relação ao futuro da humanidade. Extermínio e Sunshine – Alerta Solar, que ele “só” roteirizou, e Ex-Machina, que ele roteiriza e dirige, passam a ideia de alguém que não vê a humanidade como boa e que, no final das contas, apesenta uma espécie de instinto de destruição inato que sempre prevalecerá sobre nossos aspectos positivos. Em Aniquilação, seu mais novo longa, distribuído pela Netflix, ela volta a esta premissa mas de uma forma mais aguda, simbolicamente falando, numa produção que mete medo, te instiga a refletir sobre algumas coisas, é carregada com uma aura de estranheza e levanta algumas questões que talvez só saberemos às respostas em sua possível continuação.


Lena (Natalie Portman) uma bióloga e ex-militar se junta à uma expedição com outras quatro mulheres para desvendar os mistérios de uma região que foi acometida por um evento estranho – místico? Químico? Alienígena? os pesquisadores não sabem – todas as expedições anteriores fracassaram: ninguém voltou, exceto um, o marido de Lena, o sargento Kane (Oscar Isaac). Antes de descobrir do que se trata aquela anomalia no local, nomeada como Área X ou Brilho, pela luz que emite, Lena precisa descobrir uma forma de ajudar o marido que voltou da Área X diferente e corre grande risco de vida.

Bom, podemos começar a falar que Garland não se preocupa em ser muito didático. Há vários momentos onde uma explicação aparente não existe cabendo ao espectador desvendar por si o que aquilo significa. Há sim alguns momentos de diálogos expositivos mas nada que entregue demais, servem só pra mostrar um rumo a ser seguido e o final fica por conta de cada um (falaremos mais sobre depois...). Mas, olhando um pouco além da superfície, percebe-se que o autor deixou  muitas informações de forma indireta e elas tem muito à dizer...

A começar pela formação da equipe de mulheres que vão se aventurar na anomalia. Todas elas apresentam algum problema ou trauma que dialogam  diretamente com a ideia do diretor de autodestruição inata ao ser humano. A física Josie Radek (Tessa Thompson), que se automutila pra se sentir-se viva; a geóloga Cass Sheppard (Tuva Novotny) que enterrou a filha a pouco tempo e sente como se parte dela morrera também; a paramédica  Anya Thorensen (Gina Rodriguez) uma viciada em potencial; a líder da equipe, dr. Ventress (Jennifer Lason Leigh), psicóloga que logo de cara você percebe que há algo de muito estranho com ela e é explicado mais para frente o que é; e Lena que por escolhas do passado colocou seu casamento em risco...

Toda esta carga negativa autodestrutiva das personagens é bem representada logo no inicio do filme de forma simbólica quando Lena está dando uma aula sobre células cancerosas e explica o conceito de tumores, de como eles são uma espécie de autodestruição do próprio organismo. Há um diálogo entre Lena e a dr. Ventress em determinado momento que salienta isso quando a psicóloga diz:

"quase ninguém se suicida, mas todos se autodestroem. Nós bebemos, fumamos, traímos o marido..."  

E é sobre isso que o autor quer falar: nossa capacidade de autodestruição...

E o autor decide fazer isso de forma, digamos, diferente. Ele enfatiza os planos abertos – bem oposto ao eu vimos em Ex-Machina que prioriza as tomadas mais fechadas e intimistas -  colocando os personagens no centro da câmera com um espeço pouco preenchido em volta. Isso serve pra mostrar o local onde se encontra a anomalia dando uma ideia de natureza e ressurreição, de surgimento. A fotografia também vai por este caminho num tom meio esverdeado que remete logo ao natural. Mas este natural não é familiar, pelo contrário...

Dentro do Brilho, vemos formas de vida hibridas, impossíveis de ocorrer segundo a biologia atual – crocodilos com dentes de tubarão, veados com chifres floridos, flores cladisticamente distintas mas que provém da mesma planta..., e isso, além de ser visualmente belo em alguns momentos é aterrador em outros. Um deles principalmente. Há uma cena com as personagens em uma sala, com uma luz fraca, que surge uma dessas criaturas que te faz dar um pulo na cadeira de tão bizarro e medonho que era aquilo. Me lembrou imediatamente o conceito de Vale da Estranheza. Mas, apesar do tom instigante e do suspense permeando toda a obra, os momentos de susto pontuais não são constantes  - o que é bom pois quando surgem, são foda -  e talvez por conta disso, o autor decidiu por aplicar uma atmosfera meio gore em algumas cenas. Cito principalmente quando as expedicionárias encontram um vídeo da última expedição e o bicho se mexendo dentro do cara evoca um senso de bizarro e nojento.

O filme é contado em flashbacks já te contando que a exceção de Lena, todos morreram. E quando sabemos como e entendemos algumas coisas (pois não há resposta pra tudo) principalmente a nova natureza de Kane e Lena, aquela classificação de ficção científica fica meio em segundo plano. Me lembrou muito algumas histórias de Horror Cósmico de H. P. Lovecraft, principalmente os contos A Cor Que Caiu do Céu e O Chamado de Chullu. A trilha sonora com instrumentos que dão a impressão de algo fora desta realidade reforçam esta impressão do desconhecido, de uma força ou forma de vida que nem liga pra nós humanos e por isso, perigosa. Sem contar que a nova natureza dos personagens casa perfeitamente com a ideia de autodestruição que foi evocada no filme. É uma representação bem forte dos humanos que vivem a modificar tudo a sua volta, inclusive a forma de vida da própria espécie – é só lembrar dos cristãos catequizando os índios... – não se importando muito com o que está se perdendo neste processo, principalmente no que diz respeito a fauna e flora...  

A cena final do filme é bem surreal. Um excesso de cores numa sequencia bem psicodélica que me lembrou o final de 2001, Uma Odisséia no Espaço (pessoal, não estou comparando, ok?). E este final apesar de dar uma algumas respostas não explica tudo: o que era aquele Brilho? Porque veio aqui? Será que realmente acabou? O que são agora Lena e Kane? Eu cheguei a uma conclusão (não sobre tudo, vale ressaltar) bem subjetiva e a cena, lá no inicio com Lena e Kane dando as mãos com um copo de água na frente impossibilitando saber qual mão pertence a quem, que me pegou logo de cara ficou mais forte ainda depois da cena final deles dois se abraçando...

Apesar de deixar o final em aberto, afinal é baseado na trilogia do autor Jeff Vandermeer, Aniquilação fornece algumas respostas mas não todas. Pela natureza surreal do filme e seu ritmo as vezes lento, pode não agradar à todos. Ainda assim, é um filme que vai consolidado Alex Garland como um dos novos nomes da ficção cientifica, sempre com a mensagem de que os seres humanos são, em si, autodestrutivos. ...
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Aniquilação (Annihilation, EUA, 2017)
Roteiro: Alex Garland 
Direção: Alex Garland

Elenco: Natalie Portman, Oscar Isaac, Jennifer Jason Leigh, Gina Rodriguez, Tessa Thompson, Tuva Novotny


Duração: 115 min.